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A mostrar mensagens de maio, 2020

"Já ninguém lê Dostoievski"

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A Câmara Municipal de Almada tem, na plataforma soundcloud, um podcast " Os Livros da minha vida ", em que professores, alunos e funcionários dos agrupamentos das escolas do município falam do livro ou dos livros que mais os marcaram. Uma professora bibliotecária disse que Dostoievski é um escritor fundamental, "que já ninguém lê", e destaca Émile Zola como um escritor que tem o condão de a desfazer em lágrimas. O Secretário de Estado da Educação rematou o projeto destacando o primeiro livro que leu de um sopro, sentado nas escadas dos pais: "Mataram a Cotovia". O Secretário de Estado esclarece ainda a importância do Plano Nacional de Leitura: motivar os jovens a lerem livros até ao fim, seleccionando livros que "agarrem" as crianças à leitura. Muitas vezes a literatura começa assim: com livros que nos agarram, e depois passa por várias fases, e culmina "na nossa praia". Mas, para isso, é preciso que não assustemos os jovens com calhama...

A auto-publicação

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Quando publiquei o meu primeiro romance, " Demência ", pela Alfarroba , estávamos em 2011 e eu não tinha qualquer entendimento do mercado editorial. Na altura, estava a enviar outro manuscrito para várias editoras. Era fácil, bastava ir aos sites e preencher o formulário de envio de originais. Era logo avisada que, se não respondessem em X tempo, é porque o livro não se adequava no  Plano Editorial . Ficava triste perante tanto silêncio, posto que estava convencidíssima de que tinha escrito uma coisa espetacular, e de que o meu livro era pelo menos tão bom quanto alguns que via publicados e que acabava por ler. Existe uma enorme possibilidade de que estivesse enganada, inebriada pelo feito de ter terminado três romances que considerava publicáveis apenas com 18 anos, e desde então andava nessa senda por publicação. Eu sempre escrevi para mim, mas havia gente próxima que sabia que o fazia, que lia os manuscritos, que sabia que dedicava bastante tempo a essas andanças, e que me...

#249 HAMSUN, Knut, Pan

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Sinopse:  Pan  é, desde a sua publicação, um dos livros mais apreciados e amados de Knut Hamsun. Uma obra-prima da literatura, onde «a natureza fala na língua subtil e sonhadora de um breve e idílico Verão nórdico». Através dos papéis encontrados depois da sua morte, o tenente Glahn relata-nos a sua trágica paixão pela jovem Edwarda, num crescendo de exaltação que invade e se confunde com a paisagem envolvente, tor­nando-se difícil distinguir entre natureza e psique. Opinião:  Ainda no outro dia se falava, algures pelo  Instagram , sobre comprar-se livros pela capa. Comprei  Victoria  (1898) precisamente pela capa, depois ajudada pela sinopse. Gostei tanto que pouco depois me comprometi a adquirir  Fome  (1890, vejo-o sempre esgotado), e este  Pan  (1894). Pan  é uma figura da mitologia grega, meio humano meio animalesco (focinheira e chifres), divindade dos bosques, e portanto dos pastores e dos caçadores. Uma breve leitura a seu respeito revela-nos que o seu lado humano lhe conferia ...

1993

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Em 1993 tinha três anos. Vivia na casa dos avós; um primeiro andar de vivenda com um quintal que me parecia infinito. Agora dou-me conta do privilégio que foi ter crescido com  espaço.  O quintal proporcionava, além de ar livre, banhos de mangueira, naufrágios de Barbies no tanque da roupa, missões secretas do Action Man , casas de tijolos e cassetes para as bonecas. Também cheguei a fazer fogueiras e a destruir panelas quando me dava para fazer sopa de urtigas e hortelã. Andava sempre descalça e com a avó a ameaçar-me com um chinelo que nunca chegava a cair-me no lombo. É engraçado como as minhas memórias de infância são as que me surgem mais vívidas, muito mais do que as se seguiram na adolescência, ou as da última década como "jovem adulta". Qualquer momento que me recorde da infância está povoado de cheiros, de sensações, dos ecos das vozes e dos avisos da avó. Lembro-me exatamente a que é que sabia o azeite no fundo do prato, depois de ser torturada com pescada cozida, e...

Recomeçar

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Diria que vivi muito bem as primeiras quatro semanas de pandemia em confinamento. Com a facilidade de poder trabalhar a partir de casa, auto-isolei-me a 13 de março e só afrouxei as saídas a semana passada. Quando digo que afrouxei as saídas significa que me rendi à falta que os meus sobrinhos (alguns deles meus vizinhos) me fazia. A mais pequenina está com nove meses. Por sorte, ainda vim a tempo de viver este momento com ela: põe-se em pé, começou a gatinhar, mexe em tudo, empoleira-se em tudo, diz várias palavras. Está a tornar-se uma  pessoa e, antes que se esquecesse de mim, dei-lhe colo de novo. Não o faço com leveza de espírito: acredito que o certo seria manter-nos afastados mais um pouco, irmos sorvendo do copo dos afetos gota a gota, em vez de nos embriagarmos com os cheiros e os abraços dos que nos fizeram falta.   Mais ou menos a meio desse confinamento, durante o Estado de Emergência, via as ruas desertas da janela, sobretudo a partir das sete da tarde, quando todo o comé...

Sacrifícios

O que se tem passado nos últimos dias, em que toda a gente adoptou a palavra "desconfinamento" como mote, tem sido vergonhoso. Mais do que isso, saber que a PSP foi recebida a tiro no bairro dos Machados, perto do Parque das Nações, quando fazia o seu trabalho de acabar com uma festa... Uma festa. Pena que eu não mande em nada, porque não seria tão branda. Não faria avisos, não seria contida nas medidas de coação. Abrir fogo contra a autoridade policial não seria desculpável, fosse como fosse. Mas ignoremos esta parte. Uma festa? As pessoas estavam a fazer uma festa? Quão estúpidos podem ser, e à centena, para estarem a fazer uma festa?  Não tenho argumentos para explicar o impacto desta pandemia a nível mundial. Não haverá cálculo total de quantos perderam o emprego, quantos viram o seu negócio afundar-se, quantos estão apartados dos seus familiares, quantos idosos estão sozinhos a passar por isto. Há cálculo, sim, de quantos perderam vidas: são mais de 300 mil pessoas, pelo...