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Escritores: revoltai-vos

  Uma coerência escandalosa A semana passada foi mais uma semana negra para a cultura portuguesa. O flagelo anual da atribuição de Bolsas de Criação Literária pela DGLAB voltou a cumprir-se, numa tradição longa e incontornável. Uma vez mais, há padrões, nomes e tendências que se repetem, numa clara demonstração de como o orçamento para a cultura continua a ser monopolizado para alavancar, sustentar ou prestigiar carreiras de um número limitado de criadores oriundos de uma bolha com contornos nítidos e fáceis de identificar. Esta reflexão não pretende insinuar que não há mérito em alguns ou muitos dos contemplados, aos quais dou desde já os parabéns. Nas linhas que se seguem, tornar-se-á evidente o tipo de conduta que aqui condeno, e que vou observando ano após ano. Todo o meio literário português está refém daquilo a que podemos chamar, de forma bastante leviana, de “crítica cultural”. O problema da cultura em Portugal começa aí, mas quem quiser aprofundar a questão pode sempre...

A Paisagem

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Há uma semana e meia debatia a paisagem com a última pessoa que conheci nas aplicações de encontros. É um alemão a viver e trabalhar em Portugal há quase uma década, e discutíamos o sentimento de devastação que experienciei durante a minha curta passagem por Hamburgo, em 2014. Em julho de 1943, a Operação Gomorra arrasou metade das habitações de Hamburgo e matou milhares de civis. A cidade ficou arrasada e, setenta anos depois, eu achei que ainda era capaz de sentir a dimensão dessa ferida aberta. No semblante dos habitantes, na arquitetura modernista da cidade, num ambiente sombrio de reconstrução eficiente, mas que não cura. Não esquece. Posto isto, a dimensão psicológica de vermos a paisagem que conhecemos devastada por uma catástrofe natural ainda está por apurar. Se somarmos a isso a nossa casa, será como perder a nossa identidade. Ver tudo à mercê da natureza, dobrado ao meio por ventos, arrastado por aluviamentos, pinhais arrasados com os pinheiros partidos ao meio, como meros ...

#312 SILVA, Filipa Fonseca, Admirável Mundo Verde

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Sinopse:  Num futuro não muito distante, um grupo de activistas pelo clima radicaliza-se e decide derrubar o sistema. Dotado de uma eficaz máquina de propaganda, que lhe garante o apoio popular, consegue chegar ao poder e impor uma sociedade totalmente verde. Mas a que preço? Depois do sucesso de "E Se Eu Morrer Amanhã?" e de "O Elevador", nomeados para melhor livro do ano e em adaptação para filme, Filipa Fonseca Silva traz-nos um romance distópico electrizante, que levanta questões incontornáveis, como a emergência climática e a polarização de uma sociedade à deriva.   Opinião:   Admirável Mundo Verde , com uma capa magnífica e poderosa que põe na gaveta os preconceitos de "romance no feminino", beneficiou de uma questão: é que estou a ler  1984  [abandonei] enquanto o lia, e às tantas os universos distópicos recordavam-me o outro, e eu tinha de me situar. Acho que é um bom elogio dizer que, por vezes, na minha cabeça, não sabia se tinha acabado de l...

#311 SALEM, Tatiana Levy, Vista Chinesa

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Opinião:  Em História, estou a descobrir que uma investigação bem feita segue uma metodologia transdisciplinar, que inclui várias áreas de estudo das ciências sociais, incluindo antropologia, psicologia, sociologia, etc. Ao ler Vista Chinesa , dei por mim a aplicar a mesma teoria a um livro que é um tratado de literatura com ingredientes de todas essas áreas. Li este livro em 3 horas, perplexa por só agora me ter cruzado com esta obra-prima. "Eu estava viva, mas ainda não sabia se a vida seria possível." O livro é um colosso de literatura, favorecido pela economia do número de páginas, escritas a uma mesma cadência, como um fôlego único e imersivo. O fluxo de consciência seria a única abordagem possível para uma obra que é uma viagem atribulada à psique de uma mulher destruída, fraturada , vítima daquilo que é o maior terror do sexo feminino e que, com a força que nos é intrínseca, continua . "Não deve haver aflição pior do que o desconhecimento tangível da dor de um fil...

Meditações

Há coisas que, ainda que acabe por as compreender relativamente a mim mesma, nunca conseguirei evitar – ou, pelo menos, contornar, amenizar. Tenho meditado. Foi um conselho do meu psicólogo, que os dá muitos e úteis. Por algum motivo, esse foi o melhor que recebi até hoje. Tem sido uma experiência imersiva, intensa e inesperada. Na sessão de ontem, sentada em posição de lótus, permiti-me fazer uma viagem nova. As deambulações têm sido por sítios que costumo revisitar da minha infância, mas fui sempre uma mera espetadora, o repositório da memoir , que guardo deles. A meditação permite-me interagir com eles, deixar-me submergir por essas recordações, aprofundá-las e senti-las de novo. A partir de um sítio seguro e da maturidade que tenho vindo a construir. Ontem, involuntariamente, chorei. Foi um choro orgânico que veio com aquela imagem avassaladora. Quando medito, vejo o mundo a partir de diversos ângulos. Às vezes, vejo o que tenho à minha frente enquanto percorro o antigo corredor ...

Materialistas (mas pouco)

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Não precisamos de 1h56 minutos para contar a história do trio principal de Materialists . Na verdade, é um duo com uma aparição curta e sem sal de um terceiro membro que só existe para empurrar o casal principal para os braços um do outro. Meh. Pergunto-me se  Materialists  (2025) procurava assumir um tom de crítica social. Uma mulher com ambição, bem-sucedida, que valoriza a estabilidade financeira e a facilidade com que o dinheiro elimina obstáculos do dia-a-dia (como pagando estacionamento, em vez de dar voltas intermináveis na rua, sob pena de perder a reserva de um restaurante). Percebo que uma mulher jovem se permita esse tipo de fantasias, mas a Lucy (Dakota Johnson) já experimentou a vida com o tipo bonito e atencioso que a ouve e que não sai da cepa torta. Já sabe que não funciona e sabe exatamente onde a coisa sofre atrito entre si e o John (Chris Evans) . Sinceramente, ele nem sequer parece muito interessado em sair da cepa torta, e isso é o pior. O homem furioso, frustrado ...

Better days

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Os meus olhos procuram, acima de tudo, beleza. Para meu contentamento, comecei a recebê-la das coisas que me saem da mão. Ora vejam estas sapatilhas de bailarina que pintei há uns dias, a pastel de óleo. Não me canso de as admirar. Pergunto-me se o rumo da minha vida teria sido diferente se, no passado, me tivesse apercebido de que isto já estava cá dentro. Viver no campo também passou por uma estratégia de extrair de mim o que de eventualmente bom, luminoso e saudável ainda pudesse vir à tona. Não têm sido dias propriamente bons. Tenho dormido pouco e mal, seja por causa das preocupações com as contas para pagar, seja porque arranjei dois cães que me alertam para o fim do mundo a cada vez que um pássaro agita os ramos da laranjeira, no quintal. Confirmo, contudo, que tudo à nossa volta corre melhor quando nos esforçamos por ser minimamente pacientes e equilibrados. Sinto-me quase incapacitada para o trabalho, com uma capacidade de concentração cada vez mais reduzida. Porquê? Porque es...