Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2025

Tinta

Estou a entrar no último mês que vou viver com este jardim idílico no Redondo, antes de me mudar definitivamente para a minha casa. Há dias, refletia sobre isso. Sobre o adaptarmo-nos. Vivi a vida toda em Almada, mas não sinto falta nenhuma da cidade onde passei 35 anos. Gosto daqui. Gosto de descobrir as subtilezas que a geografia imprime nas pessoas. Ontem, ao pequeno-almoço, quatro idosas discutiam a morte no café. Descreviam o esqueleto do pai de uma delas, que foi exumado seis anos após o sepultamento. Outra dizia que levou porrada, imensa porrada, mas que não morreu por isso. Sou uma sortuda. Parece que o maior fardo que terei de arrastar comigo, pela vida fora, é o desta neurodivergência. De resto, parece-me que a violência ficou para trás.  Faz-me bem estar perto da natureza, embora lute por fortalecer o coração. Vejo raposas, gatos, ouriços mortos nas bermas das estradas. Sustenho a respiração a cada vez que um pássaro cruza o meu caminho em voo picado. Temo, sobretudo, a impi...

Os maus também morrem

Na sexta-feira passada, quando fui à minha aldeia buscar o meu irmão e os colegas de labuta de volta a Évora, para o autocarro rumo a casa, reparei numa coisa. Na casa em frente à minha, um pouco abaixo na rua, um dos vidros da porta principal estava partido. No seu lugar, ondulava um pedaço de plástico inútil. Não sou nenhuma santa, mas sempre que me apercebo de algo que creio poder remediar, tento fazê-lo. Sabia que a pessoa que vivia nessa casa era um homem magro, na casa dos setenta (talvez um pouco mais novo, mas bastante debilitado), sempre acompanhado de uma bilha de oxigénio, tal como o meu avô. À semelhança do meu avô, igualmente magro e mais ou menos da mesma estatura, era grande apreciador de cigarros e usava uma boina de lã. Vi-o poucas vezes, a última delas sentado nesse degrau, diante da porta cujo vidro então me incomodou. Disse ao meu irmão que podíamos ver se tínhamos algum vidro, do muito material de que ainda nos falta desfazer-nos, que pudéssemos disponibilizar-lhe....

Desatentas

A vida no campo tem acalmado o meu espírito e a minha alma, tem-me permitido dedicar-me a paixões novas e às de sempre, mas, como previa, não é suficiente para mitigar esta bênção e esta maldição que é a PHDA . Muita gente, inclusive próxima de mim, com um olhar direto para a minha rotina (ou falta dela) e desafios, já se pronunciou sobre o facto de esta condição não ser “desculpa para tudo”. Claro que não, quero acreditar que eu existo para lá dessa perturbação. Porém, condiciona muito do que sou e, sobretudo, muito do que faço ou que deixo de fazer. Ontem, passei um tratamento para madeira na mesa de cabeceira que ando a restaurar. Abri o frasco, altamente inflamável e cheio de truques, e pensei “não posso perder esta tampa”, ainda por cima vermelha e vistosa. Passei mais de uma hora a percorrer o jardim, para cima e para baixo, à procura da dita cuja tampa quando terminei o trabalho. Arrasto-me devagar, porque não vale a pena perder a cabeça, revoltar-me contra mim própria. É o meu...