Tinta
Estou a entrar no último mês que vou viver com este jardim idílico no Redondo, antes de me mudar definitivamente para a minha casa. Há dias, refletia sobre isso. Sobre o adaptarmo-nos. Vivi a vida toda em Almada, mas não sinto falta nenhuma da cidade onde passei 35 anos. Gosto daqui. Gosto de descobrir as subtilezas que a geografia imprime nas pessoas. Ontem, ao pequeno-almoço, quatro idosas discutiam a morte no café. Descreviam o esqueleto do pai de uma delas, que foi exumado seis anos após o sepultamento. Outra dizia que levou porrada, imensa porrada, mas que não morreu por isso. Sou uma sortuda. Parece que o maior fardo que terei de arrastar comigo, pela vida fora, é o desta neurodivergência. De resto, parece-me que a violência ficou para trás. Faz-me bem estar perto da natureza, embora lute por fortalecer o coração. Vejo raposas, gatos, ouriços mortos nas bermas das estradas. Sustenho a respiração a cada vez que um pássaro cruza o meu caminho em voo picado. Temo, sobretudo, a impi...