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A mostrar mensagens de abril, 2025

Porque se escreve e publica cada vez mais em Portugal? - Parte II

Crer ou não crer na seriedade das distinções? Desde 1995 que o Transparency International analisa o índice de corrupção nas instituições públicas de um país “a partir da perceção de especialistas e executivos de negócios sobre os níveis de corrupção no setor público”. O índice é estimado entre 0 (percecionado como pouco corrupto) a 100 (muito transparente). Eis o apurado para Portugal em 2024: “Portugal, que é avaliado no conjunto dos países da Europa Ocidental e União Europeia, obteve 57 pontos, fixando-se na 43ª posição em 180 países. O desempenho de Portugal foi um dos piores da Europa Ocidental , com uma queda de 4 pontos na pontuação e a perda de 9 posições no ranking global” [1] . Contudo, para o comum consumidor de cultura, a corrupção ou os jogos de influências nos bastidores do meio cultural são impensáveis. Isso porque a figura cultural, ao contrário da política, atingiu um estatuto de ídolo intocável. Aos ídolos da cultura perdoa-se o impensável. Basta refletir nos rumores ...

Porque se escreve e publica cada vez mais em Portugal? - Parte I

São várias as vozes que lamentam o facto de se publicar cada vez mais em Portugal, perpetuando a ideia de que aquilo que tem qualidade é uma raridade, ou não está ao alcance de qualquer um. Embora não possa discordar por completo, as circunstâncias são propícias a mais criação artística e literária, o que explica que, de facto, haja uma maior azáfama de produção e publicação. Contudo, o que é difícil de explicar é que, perante essas circunstâncias que desenvolvo abaixo, não surjam mais "livros a sério". O meio mais tradicional continua obstinado em manter o seu círculo "exclusivo", e é difícil encontrar nele alguém que não tenha ligações ao Estado, a determinados partidos políticos ou a faculdades específicas. Não serão essas vozes, que dizem que se lê cada vez menos "livros a sério" e que "agora se publica tudo", em parte responsáveis pela degradação dos hábitos de leitura do país até há pouco? Não serão, quiçá, os responsáveis por apenas agora ...

Sobre Mulheres Unidas na Arte e os Epítetos Artísticos

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No dia 13 de abril de 2025, a escritora e cronista Ana Bárbara Pedrosa (ABP), publicou um texto de opinião intitulado “Qual literatura feminina?”. Como gosto de estar atenta ao que se discute no meio cultural português (ademais entorpecido pela rede de amiguismo que junta todos os ditos relevantes às mesmas mesas, de jurados, de festivais, de críticos, dificultando muito a possibilidade de criticar o trabalho e a opinião dos conterrâneos com imparcialidade), fiz uma leitura atenta das suas reflexões e decidi pôr a minha veia de investigadora, e pensadora, ao serviço desta causa. Começando pelo ponto que me visa pessoalmente, e que portanto estaria à partida mais propícia a defender com argumentos sentimentais, optei por recorrer a alguns factos para tentar compreendê-lo e justificá-lo. Comecemos por aí e pela evidente confusão que a ABP faz entre “associação/clube” e “produção artística”.   Um Clube de Mulheres Escritoras Um clube, de mulheres escritoras ou de qualquer outro aglomerado...

Dilema literário: subtexto e final

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Não é fácil escrever um romance, e não é fácil pôr um ponto final num romance. Nunca escrevi um livro partindo do mero relato do dia-a-dia de alguém, navegando de acontecimento banal em acontecimento banal. Lembro-me que era isso que me incomodava na escrita da MRP quando comecei a lê-la, nos anos 2000. O "levantei-me, fui até à casa de banho, lavei os dentes, a cara, depois entrei no duche e regulei a água para a temperatura que achei confortável. Depois de me secar, fui até à cozinha, abri um pacote de bolachas e encostei-me ao balcão. Pensei: tenho de telefonar à EDP" nunca me disse nada. Isto são, muitas vezes, histórias de personagens à deriva no vento, à espera que venha um acontecimento (tantas vezes uma coincidência ) que valide a narrativa. Atenção, há ótimos livros sobre personagens à deriva no vento. Vejam  À Espera no Centeio , de J. D. Salinger, mas, mesmo aí, a deriva é mais emocional do que geográfica (embora também o seja), rotineira. Há pouco de interessante ...

A liberdade de dizer alarvidades

Há um discurso predominante na atualidade, proferido por pessoas bem-intencionadas, que me preocupa bastante. Isto de apelar para que que a liberdade de expressão dos mal-intencionados seja silenciada é-me preocupante. Levanta várias questões pertinentes, a primeira das quais: quem são os mal-intencionados, e o que define essa má-intencionalidade . A segunda questão implica que calar as eventuais boçalidades que nos ofendem é assumir que ofendem a sociedade em geral , que o meu pensamento está alinhado com o da maioria, que pertenço a uma cultura una e homogénea, com uma base social, educativa e económica semelhante, com as mesmas oportunidades e portanto perspetivas de futuro, com as mesmas dificuldades e desafios diários, com o mesmo código de valores. Portanto, que haveria consenso quanto ao tipo de discurso que pode ser propagado, e o tipo de discurso que deve ser silenciado. Isto é, que há um encontro cultural, geracional, étnico e ideológico no seio de uma nação quanto a questões...