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A mostrar mensagens de agosto, 2020

A questão da habitação digna

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Quando o meu avô morreu em Abril, o contrato de arrendamento da casinha onde sempre viveu com os filhos expirou também. Era um contrato celebrado em 1975, e a senhoria há muito que torcia pela morte do meu avô para poder recuperar a casa. Tudo bem, é património que lhe pertence. O tio sairá, até Outubro. A odisseia de procurar casa é que tem sido muito amarga, e tem-me levado a muitas reflexões. Em primeiro lugar, o meu tio tem 54 anos, a quarta classe, um emprego estável (embora apenas desde Maio, porque antes disso era cuidador do avô), e um salário diria que até bem simpático. Resumindo, o salário dele equivale ao que eu recebia ao fim de uns 5 anos a fazer uso da minha Licenciatura em Turismo. Não me parece nada mau para um homem nas suas circunstâncias, e é um emprego numa junta de freguesia onde têm manifestado apreciação pelo seu trabalho e intenções de o manter.   Dir-se-ia que tem as ferramentas certas para viver uma vida digna, com emprego digno e habitação digna, mas não. Nã...

Vida de Escritor

Nunca gostei que me apelidassem de "escritora". Para mim, "escritor" é aquele que vive da escrita, e estou muito longe disso. Não é nada fácil viver-se da escrita como profissião, e o problema é que, na minha ótica, quanto mais a escrita é profissão, menos o escritor o é em essência . Isto porque, para mim, escrever é algo que  acontece a pessoas que têm algo para dizer. Escrever é um acidente na vida dos filósofos, na vida dos grandes pensadores, na vida de qualquer homem ou mulher que se interesse pelo que acontece no mundo ao seu redor. Escrever é um reflexo da mente. Escrever com o objetivo de fazer disso ganha-pão retira a imparcialidade que uma mente necessita para gerar ideias, pensamento. Viver de escrever soa-me a  trabalho , a  obrigação . Escrever para vender é-me incompreensível, eu já tentei (há fórmulas infalíveis), mas não consigo... Não consigo produzir um  365 Dias , porque a escrita vem de meditação, de recantos profundos, e não consigo produzir ...

O velho e o cão

Enquanto lia "A Morte de um Apicultor", que não é um livro que me tenha apaixonado por aí além, vieram-me vários pensamentos à ideia. Quando o livro é vago nas mensagens, o cérebro põe-se a divagar para procurar significados mais profundos naquilo que vê impresso. Não me saía uma imagem da idade: a do senhor A., tolhido pelo Parkinson, no pátio da sua casa, com o focinho da cadela entre as mãos. Pedia-lhe perdão por não ter podido passeá-la nesse dia, e pedia-lhe também perdão por saber que no dia seguinte estaria ausente e também não poderia levá-la a esticar as pernas. A Luna, como qualquer cão fiel, sacudiu a cauda e olhou-o com adoração. Mas a cena ficou-me: o senhor A. desiquilibra-se constantemente, e sente necessidade de pedir perdão ao cão por não poder passeá-lo. Eu pensava nisso, e também tentava discernir o nome das árvores ao meu redor, que começaram a derramar a folhagem sobre o Dão. Passei o dia com os pés descalços sobre os blocos de granito, a equilibrar-me no...

#257 DINIS, Júlio, Uma Família Inglesa

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Opinião:  Que achado delicioso! Nunca me tinha inclinado para Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho - 1839-1871) nem para as suas obras mais sonantes ( A Morgadinha dos Canaviais  ou  As Pupilas do Senhor Reitor , entre outros). Comprei o livro numa loja em de artigos em segunda mão, custou-me um euro e achei graça à edição, no acordo ortográfico em vigor nos anos 70. O autor é conterrâneo de Eça de Queiróz e de Camilo Castelo Branco, e creio que faz uma ponte entre os estilos praticados por um e outro. Camilo vivia o amor lado a lado com a tragédia, não há finais felizes para os seus mais famosos amantes. Eça via o mundo com um realismo irónico (uma espécie de rir para não chorar), e expunha os defeitos da sociedade hipócrita do século XIX. O jovem Júlio, sendo médico e de ascendência inglesa, era versado em literatura saxónica, menciona grandes nomes como Byron e Sterne, ou ainda Walter Scott, e estava familiarizado com o modo de ser inglês e português (portuense, em específico...

As amoras

A casa tem três andares. Estava deitada no último, sobre a cama de ferro. Duas das três janelas estão abertas e as cortinas quase translúcidas filtram o sol do fim de tarde. No segundo andar, alguém tomava duche e os vapores chegavam-me perfumados. Procurava a poesia que havia em mim: o jeito de observar as coisas ao meu redor, de me importar o suficiente para registá-las. Mas estou sempre cansada. Continuo a estar sempre cansada e a dormir demasiado. Pouco depois de acordar, já tinha sono. Pouco depois de almoço, tinha sono de novo. E, assim que regressei do rio, vi-me de novo sonolenta. Dormi tão bem, esta noite, que nem ouvi as crianças brincarem a jogos de mímica até tarde. Dizem que se riram, debitaram detalhes da brincadeira, mas eu não ouvi nada. Quando vim dormir a minha sesta, disseram “vamos às amoras”, e partiram. Usaram uns chapéus de pescador que encontraram ao lado da porta, percorreram toda a aldeia até ao cemitério e debruçaram-se da ribanceira escudada de arbustos de a...

Uma Família Inglesa

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Com os preparativos das férias, as insónias (que me mantém sonolenta o dia todo), e os dias como ama do bebé mais delicioso do mundo, ainda não consegui terminar  Uma Família Inglesa , de Júlio Dinis. Está a ser um livro maravilhoso, uma surpresa que me deixa feliz por finalmente conseguir extrair toda esta admiração e prazer de um livro  nosso ! O livro segue comigo para férias, mas gostaria de deixar dois excertos de que gostei particularmente, e que exprimem um sentimento português muito verdadeiro até há pouco tempo. Se ousamos falar de Camões, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez, Château-Lafite e Tokay, é porque lhe deram lá fora o diploma de fidalguia; que por nós... continuaríamos calados." No período da Regeneração, em que o jovem Júlio Dinis teceu esta belíssima obra - tanto em prosa, quanto em reflexões e asserções a propósito do modo de ser português e do modo de se ser inglês no seio dessa socied...