Ut pictura poesis
Nunca como agora - quase a chegar aos 35 anos - estive tão ciente das minhas limitações. Paradoxalmente, isso deixa-me mais orgulhosa das minhas conquistas. Afinal, sempre fui uma cabeça de vento ambulante, dividida entre o tédio e o entusiasmo, acordada de noite e sonolenta de dia, que recorda pormenores absurdos mas não consegue lembrar-se de detalhes importantes nem que tenha a vida em risco. A casa é o equilíbrio entre a pessoa desarrumada e a que odeia desordem. As refeições são preparadas no joelho ou encomendadas por desespero. A pintura é uma indulgência, bem como os animais, a coleção de livros. Há dias em que estranho ter escrito e publicado tanta coisa, há outros em que não compreendo como não escrevo mais, tendo uma cabeça tão prolífera em ideias. O sítio para onde vou morar é escuro, muito escuro. A única estrada que conduz àquela fachada caiada e àquele torreão medieval está atapetada de animais atropelados. Enquanto conduzo nela, repito: atropela, atropela, atropela . ...