Leaving on a Jet Plane
O cancro é uma coisa imunda, cruel, do mais ignóbil que existe à face da Terra. Quando percebemos que o cancro estava finalmente a apanhar a minha mãe, descobri uma canção de Peter, Paul & Mary chamada Leaving on a Jet Plane sobre uma partida. Não pensei que a minha mãe nos deixasse tão cedo. Pensei que ainda tivéssemos mais um bocadinho. Mais uma ida à Costa da Caparica, uma pequena trégua numa doença implacável. Mais um bocadinho do sorriso alegre dela, por entre sofrimento que nem consigo imaginar. A minha mãe devia ter dores. Devia ter carências. Devia ter medo. De algum modo, encapsulou tudo isso no seu interior e mostrou-nos sempre sorrisos e optimismo. Em janeiro, pelo braço do companheiro dos últimos dez anos, falava no verão. Falou sempre nos seus planos para quando voltasse a ter a sua vida de volta. Para quando nem tudo se resumisse a funções básicas corporais como comer, dormir, falar. Acontece que o tempo nunca voltou atrás por uma tarde que fosse. Cada degrau que el...