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A mostrar mensagens de setembro, 2021

#289 VELHO, Amaro, Susana, O Bairro das Cruzes

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Opinião: "Afinal as pessoas morriam mesmo. (...) É assim que as pessoas acabam. Em reticências." Há muitos anos tropecei ocasionalmente em As Últimas Linhas Destas Mãos , e apaixonei-me pela história. Creio que reconheci naquelas linhas parte daquilo que é a minha visão do mundo. Uma perspetiva que reconheço como feminina, mas atenta e que vai muito além dos dilemas do amor. Em O Bairro das Cruzes, a querida Susana voltou a conquistar-me desde as primeiras páginas. É uma escrita com ritmo, fluidez e sem pretensões, mas, acima de tudo, é um livro com história. É assim que gosto de ler sobre história: os eventos que marcaram todo um povo intercalados com os eventos pessoais que marcaram as personagens que acompanhamos ao longo destas 240 páginas. Senti, uma vez mais, uma identificação quase imediata com a relação principal, a das primas Luísa - a nossa personagem principal - e Rosa, a sua co-protagonista. A relação destas duas mulheres ao longo de mais de duas décadas, bem com...

#288 NÉMIROSVKY, Irène, O Baile

Opinião: Há, na natureza humana, uma espécie de competição passiva entre mãe e filha, em certos núcleos. Muito se tem falado de crianças criadas por mães narcisistas, creio que Irene Nemirovsky, inspirada na sua própria relação com a mãe, nos ofereça um conto sublime em torno do assunto. É simples, curto, contém apenas o essencial. Ainda assim é intenso, com personagens cheias de nuances e de motivações. Antoinette tem 14 anos e é quase uma mulher. Os pais, um judeu convertido e uma ex funcionária de banco, são novos ricos graças a uma jogada na bolsa. Desesperados por impressionar a classe a que tanto desejaram pertencer, negligenciam a filha única. Vivem de aparências, e procuram moldar Antoinette a um estilo de vida em que, acima de tudo, importa impressionar. Antoinette vinga-se dos pais da melhor forma, em especial da mãe que lhe é abertamente hostil. Lembrou-me, com melancolia, a intensidade das novelas de Stefan Zweig. Gostei muito. Sinopse: Os Kampf, acabados de transpor o lim...

#287 CRUZ, Afonso, O Vício dos Livros

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Sinopse: Na biblioteca do faraó Ramsés II estava escrito por cima da porta de entrada: «Casa para terapia da alma». É o mais antigo mote bibliotecário. De facto, os livros completam-nos e oferecem-nos múltiplas vidas. São seres pacientes e generosos. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor. Somos histórias, e os livros são uma das nossas vozes possíveis (um leitor é, mal abre um livro, um autor: ler é uma maneira de nos escrevermos). Nesta deliciosa colheita de relatos históricos e curiosidades literárias, de reflexões e memórias pessoais, Afonso Cruz dialoga com várias obras, outros tantos escritores e todos os leitores. Este é, evidentemente, um livro para quem tem o vício dos livros. Opinião: Este 3 é, na realidade, um 2,5 , arredondado para 3 para a) não dizerem que sou má e b) fazer jus à escrita, que é bastante competente. Mas nunca passa disso: uma tecelagem de assuntos em torno de livros e da leitura, alguns m...

#286 NÉMIROVSKY, Irène, Suite Francesa

Sinopse: Escrito em plena tormenta da História, Suite Francesa descreve quase em directo o Êxodo de Junho de 1940, que reuniu numa desordem trágica famílias francesas de todos os quadrantes, das mais abastadas às mais modestas. Com grande audácia, Irène Némirovsky persegue as inúmeras pequenas cobardias e os fracos gestos de solidariedade de uma população à deriva. Cocottes abandonadas pelos amantes, grandes burgueses enojados com a populaça e feridos abandonados em quintas entopem as estradas de França bombardeadas ao acaso... Pouco a pouco, o inimigo toma posse de um país inerte e amedrontrado. Como tantas outras, a aldeia de Bussy é então obrigada a acolher o exército ocupante. Exarcebadas pela sua presença, as tensões sociais e as frustrações dos habitantes despertam... Suite Francesa é, ao mesmo tempo, um brilhante romance sobre a guerra e um documento histórico extraordinário. Uma evocação inigualável do êxodo de Paris após a invasão alemã de 1940 e da vida sob a ocupação nazi, e...

#285 TORDO, João, Manual de Sobrevivência de Um Escritor

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Opinião:  "A literatura nasce de uma necessidade quase atómica de ordenar aquilo que surge catastrófico, de reunir num volume a fragmentada experiência humana". João Tordo é escritor de profissão. Em 2004 publicou o seu primeiro romance, O Livro dos Homens sem Luz e em 2020 lançou este "manual de sobrevivência" onde compila o conhecimento que obteve ao longo de 16 anos de ofício. Penso que qualquer escritor ou aspirante a escritor se vai interessar por este livro. Li-o em ebook, o que me permitiu ir sublinhando os pontos cruciais, citações e curiosidades. Achei que as referências são muito acessíveis, pelo menos tendo em conta as minhas leituras habituais. Identifiquei-me em muitos pontos com aquilo que o escritor expõe - por ex., que um escritor que tenha experienciado dificuldades na vida será, à partida, um escritor mais capaz. Algumas observações pareceram-me muito elucidativas daquilo com que eu própria concordo... "O papel da ficção não é pedagógico, so...

O bloqueio de escritor

Tenho alturas em que me sinto tão, mas tão inspirada, mas não consigo sentar-me a escrever. Outras em que tenho imensa vontade de tornar ao hábito de me sentar e despejar palavras na folha em branco, mas não tenho nada a dizer. É preciso que estas duas vontades coincidam para que me sente e escreva. Também por isto não me assumo como escritora. Sinto-me escritora em 5% do meu tempo desperta. Parece-me pouco... gera poucas obras de significância, mas aqui também acho que cada um tem um número máximo de temas que lhe falam ao peito, ou de projetos que pode executar com sentimento e assertividade. É preciso que a história me persiga, me assombre, me desperte durante a noite e me arranque lágrimas enquanto executo as tarefas mais banais em casa. Neste momento, tenho vários romances começados, outros que me acompanham durante o dia, que me acenam à distância. Mas não tenho a mínima vontade de me sentar a escrever. Se pudesse despejá-los num gravador, ou trazê-los, por via da telepatia, para...