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A mostrar mensagens de março, 2020

Wishlist & Wishread

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A minha lista de livros por ler e por comprar (nem sempre coincide) não pára de crescer. Entretanto, desde 28 de fevereiro que me dediquei à tarefa megalómana de ler  Os Irmãos Karamazov, porém tarefa não tão megalómana quanto terá sido para o senhor Fiódor Dostoievski escrevê-lo no fim da sua vida (aos 58 anos). Em suma, ainda que esteja a intercalar essa leitura com o meu próprio Os Pássaros,  a verdade é que livros bons como este russo, que mexe com a natureza humana e as suas múltiplas complexidades nos põe em sintonia com dezenas de outros livros que gostaríamos de ler. A somar a esta inspiração avassaladora vinda de terras russas, tenho seguido o Rodrigo Guedes de Carvalho no Jornal da Noite e no Instagram , e cada vez admiro mais a pessoa e o criador. De tal modo que, ao assistir ao lançamento do seu novíssimo  Margarida Espantada , decidi incluir uns quantos volumes da sua autoria na minha já bastante extensa lista de livros-a-comprar/a-ler. E gostei muito de uma sinopse de um...

Mas e as saudades?

E as saudades? Antecipei alguma ansiedade face ao meu posto de trabalho, ao pagamento das contas, à doença em si, sendo asmática. Mas não antevi que o pior disto tudo seriam as saudades. O Homem sobrevive em bando, desde sempre. Um caça e o outro curte as peles, certo? De repente vem isto – que me tenho esforçado ao máximo por ver pelo lado positivo, porque há alguns positivos, se bem esmiuçado – e aparta-nos uns dos outros. Tudo bem que há internet, e há telefones, e há uma panóplia de gingarelhos que nos mantém mais ou menos conectados. Mas não há o calor do abraço, do toque, do riso aqui ao lado. Só ontem entendi que o pior deste isolamento são as saudades. Não equiparo as saudades à tragédia humana que está a desenrolar-se em Itália e em Espanha, nem ao esforço hercúleo do pessoal médico, à bravura das enfermeiras e de todos os que combatem na linha da frente. O que quero dizer é que, a ter sorte, as saudades são o que me vai doer mais neste contexto, e já doem bastante. Nos último...

O vírus, a economia, o turismo

Trabalho em Turismo, no chamado Incoming . Significa que tudo o que conquistei na vida foi graças às nossas fronteiras abertas, ao interesse dos estrangeiros. O meu núcleo laboral é composto por guias-intérpretes, motoristas de turismo, hoteleiros, comerciais, etc. Sem pessoas a vir, a nossa vida fica em suspenso. Tudo bem. A saúde primeiro, havemos de dar a volta. Sobre o vírus, só me resta dizer que as pessoas continuam a não entender, e as autoridades não têm agido conforme esperado. Das poucas vezes que saí de casa, fiquei horrorizada com tudo o que testemunhei. Não posso garantir que não tenha tocado no vírus, ou que não o tenha trazido para casa. Levei os meus próprios sacos, tentei não tocar em nada… Mas ainda assim tive de empurrar o carrinho no supermercado, que abrir os frigoríficos de iogurtes, que meter as laranjas no saco, sem saber se a dona Helena não terá estado lá primeiro a apalpá-las todas… Quando pus as coisas na caixa, a senhora (sem luvas nem máscara, aliás como t...

Rebelião e leituras mais do que desejadas (Wishlist #2)

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Família Real Russa - "Os Romanov" - 1913 Por enquanto, permaneço enlaçada nas teias de Os Irmãos Karamazov. Continua duro, implacável. O excerto abaixo é do capítulo "Rebelião", em que os irmãos Aliocha (Alexey) e Ivan conversam numa taberna sobre a existência ou a pertinência da existência de Deus. “ Há uma de uns pais que odeiam a filha de cinco anos e são pessoas respeitáveis, bem-nascidas e educadas. Olha, tenho de dizer-te que a característica de muita gente é precisamente esse gosto em torturar as pobres criaturas. (…) Pois bem, estes ilustres pais submetiam a pobre criatura a todo o tipo de torturas: açoitavam-na, davam-lhe pancada, espancavam-na por qualquer coisa até que o corpo dela ficava coberto de nódoas negras. E logo começavam os maiores refinamentos de crueldade: encerravam-na num lugar nauseabundo nas noites geladas e sob pretexto de que não chamava para que a tirassem dali (…) sujavam-na, enchiam-lhe a boca de excrementos e era a mãe, a própria mãe...

Duas colheres de café

Por um lado, tenho medo do filme de ficção científica que está a passar-se para lá da minha porta. Por outro, não consigo deixar de pensar que, apesar da sombra de falência, colapso financeiro, desemprego e miséria generalizada, a minha geração precisava disto. Nós desconhecíamos o significado de liberdade. A definição de direitos, os conceitos vagos de fome, de dificuldades. Estamos habituados a sair à sexta para o nosso restaurante favorito de comida de fusão, e ao sábado para um lounge onde um cocktail custa o mesmo que um livro. Isto é a nossa Terceira Guerra Mundial, e não é uma guerra de países contra países, mas uma guerra de cientistas contra um vírus de fácil propagação, e de governos contra os interesses económicos das suas nações a favor do valor máximo da vida. Também é uma guerra de pessoal médico e auxiliar contra a falta de investimento das nações na saúde, e contra a falta de condições generalizada. É uma guerra que expõe as fragilidades dos povos e dos governos, e dei...

A Ilha

A Ilha   Há uma coisa que eu repetia muito por casa, um pensamento que me ocorreu muitas vezes. Acho que vi demasiados filmes de sobrevivência e daí esse lugar mental ao qual regressei tantas vezes: - Se ficasse sozinha numa ilha, do que precisaria de facto? O que me leva a dizer às minhas irmãs, de vez em quando: - Se vocês estivessem numa ilha, ia dar-vos jeito saberem fazer… Ok, hoje é o dia três do nosso isolamento (voluntário, porque o Estado ainda não começou a mandar os malucos para casa), e graças às minhas invenções já destruí os casquilhos da casa de banho e da despensa (o da despensa para tentar repor o da casa de banho). Enfim… Hoje fiz arroz de cozido à portuguesa para o almoço, já comeram isso? Cozi lombardo, chouriço e farinheira, bem como cenoura, e depois fiz o arroz nessa água. Agora está tudo no forno encimado por umas rodelitas de chouriço. Às vezes as minhas irmãs interrompiam-me com: - Já sei, já sei, se estivéssemos numa ilha… Isto é a nossa ilha. Fomos obrigados...

Tempo

Como dar a volta a isto? Agastando-me? Chorando? Receando a cada instante? Se o que está a passar-se é o grande acontecimento que há-de marcar a minha geração? Julgo que sim. É saído de um filme de ficção científica, e às vezes parece mesmo que estou a sonhar. Que a qualquer momento alguém se começa a rir e diz que é tudo brincadeira. As pessoas demoram a reagir, mas não podem demorar demasiado: a cada instante que estão em negação estão a arriscar-se e aos outros. Vou manter-me afastada das pessoas de família e amigos que amo, porque os amo. Vou evitar ao máximo dar a cara na rua e relacionar-me com outras pessoas. Já basta o que vi hoje - gente nas esplanadas, velhotes a limparem o balcão da farmácia com as mãos, distraídos, a Lusoponte com funcionários nas portagens a receber cartões multibanco e dinheiro sem luvas uns atrás dos outros... etc. Enfim... As coisas positivas? Tempo. Tempo é o o que de mais valioso existe. Eu até costumava dizer que, se tivesse tempo, lia o Guerra e Paz...

Os idiotas vão acabar por matar-nos a todos

Apesar de estar sempre a rir-me e a fazer piadas, em certos assuntos sou uma pessoa séria. Suspeito que até perdi alguns amigos por conta dessa seriedade, que me faz ser a ovelha negra que acaba com a festa do descaso. Posto isto, tenho-me mantido até bastante tranquila até ontem quanto ao assunto do momento. Segui as recomendações (fui a tipa paranoica que recusou apertos de mão e beijos a toda a gente durante os últimos dias, inclusive a um senhor da “indústria farmacêutica” que me cumprimentou por estar a agir bem e se desculpou por me ter estendido a mão, como é hábito), e não entrei em alarmismos desnecessários. Posso dizer que não comprei uma latinha de feijão extra a pensar no que estaria a vir, porque mantive um mínimo de fé no país. Ainda assim, o caso de Itália é uma oportunidade de olharmos para o futuro e de sabermos exatamente o que está por vir. Coloco-o assim porque o otimismo do Costa e a descontração generalizada do nosso país levou a que não mexêssemos uma palha para ...

Ler os Clássicos, Prós e Contras

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A minha página no  Goodreads permite-me consultar os livros que tenho lido desde que criei a conta, corria o ano do Senhor de 2011. Consultei os desafios literários de anos anteriores numa ótica de compreender se tenho lido mais ou menos volumes com os anos, mas foi outra conclusão que saltou à vista: leio diferente. Leio muito diferente, e isso tem evidentes prós e contras. Em 2011, li 3 livros.  3 livros!!!... tentei ler " As Vinhas da Ira ", achei aborrecido de morte. Tentei ler "A Filha da Minha Melhor Amiga", não consegui. O ano ficou marcado por um único livro, daqueles que ficam para sempre e que por isso chamo de clássico: " Carta da Uma Desconhecida ", do incontornável Stefan Zweig. Em 2012 li 58 livros. Bem, fantástico! Porém, li uma série de romances eróticos ditos de época, de autores como Madeleine Hunter, Lisa Kleypas, Julia Quinn, li ainda uma série de best-sellers do momento que não ficaram, como "A Valsa Esquecida" da vencedor...

Está tudo tão quieto...

É estranho. Nas últimas duas semanas, implodi. Permaneço funcional, rio, distribuo amor (ocasionalmente mau humor), cozinhei, trabalhei, lavei roupa, li (embora devagar).  Mas é que está tudo tão quieto ao meu redor... Começo a habituar-me a esta sensação de estar constantemente sozinha. Uma solidão que pouquíssimas vezes consegui mitigar na vida, porque sempre me senti, de algum modo, incompreendida. É difícil ter-se compreensão e perdê-la, ou abdicar-se dela. Hoje perguntaram-me, ao almoço, como me vejo daqui a alguns anos. São conversas boas, porque a pessoa diante de mim quer mesmo saber a minha resposta. Está tudo muito quieto ao meu redor, é o que lhe explico. E por muito que esteja tudo tão quieto, é melhor assim. Pergunta-me se me vejo com alguém, se me vejo com uma família. Não vejo. Nem quero. Cheguei aí - não quero. As pessoas, por malícia ou franqueza, desiludiram-me tanto... Estamos todos tão centrados em nós mesmos. Às vezes nem nos conhecemos. Repetimos os mesmos erros ...

Entrevista a "O que é Português é bom"

1) O que é, para ti, escrever? Escrever é uma necessidade. Junta várias coisas que pulsam em mim: imaginação, inquietação face ao mundo em que vivemos e à sua História, interesse pelo animal humano, e por aí além. Nesse sentido, “escrever” é-me algo fisiológico. Não considero escrever apenas o estar diante do computador a teclar, mas também o andar por aí em modo zombie a refletir na vida das min has personagens, a mergulhar em momentos históricos que me fascinam ou sobre os quais sinto que há algo a dizer… É isto. 2) Quando percebeste que querias ser escritora? Eu nunca senti que queria ser escritora até há cerca de um ano. Também não me considero escritora no sentido clássico da expressão. Creio que quando se nasce a ter de escrever, isto é, quando se escreve independentemente da qualidade do que sai, de chegar a um público ou não, de ser-se publicado ou não, porque nos é tão vital quanto respirar, nunca se pensa que se queria ser escritor, porque essa meta seria a de alcançar a prof...

He's just not that into you

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Ontem, uma senhora que respeito imenso e com a qual tenho tido o prazer de conviver nos últimos tempos, perguntou-me se tenho namorado. Fiz a minha piada habitual: "ninguém me quer", e rimo-nos. Com gentileza, ela disse que com certeza não seria esse o motivo. Mas até acaba por ser - simplesmente deveria ter complementado com "ninguém que eu queira me quer". Quando entrámos no elevador, e ainda sob o seu braço, resumi-lhe a génesis da minha última história amorosa. Tem graça porque conheço inúmeras histórias assim, não sei porque achei que estaria imune a esse enredo. Mesmo o 500 Days of Summer explora essa questão de não sermos a pessoa certa para o outro. Ela podia ter desfiado aqueles clichês: ele não te merecia; ou vais encontrar um melhor; ou o que é teu está guardado.  Ao invés, a honestidade dela ao responder-me a esta questão desarmou-me: - Ele não gostava de ti. Just like that. He's just not that into you. E eu admiti-lhe que não é fácil admitirmos que...

Assédio moral no trabalho

Assédio moral:  Conjunto de  acções  de assédio, de intimidação ou de  coacção  moral exercidas de forma continuada por um grupo em relação a um indivíduo, geralmente num contexto laboral.... https://dicionario.priberam.org/ass%C3%A9dio%20moral Na sequência desta notícia de ontem na SIC Notícias, achei boa ideia refletir sobre esta questão. Destaca-se o seguinte na reportagem: Perfil do chefe medíocre: "Ausência de empatia" "O foco sou eu" "Eu sou importante, os outros são lixo" "O assediador moral nunca admite que o é" Como combater esses tiranos? "Desistir é um sinal de maturidade cognitiva" "Código de boa conduta para a prevenção e combate ao assédio" E a agradável conclusão: "A tendência é para que os medíocres ocupem o poder"   A MINHA CURTA (E INTENSA) HISTÓRIA DE ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO Nunca pensei em mim como uma vítima, e, em todos os ambientes que frequentei na minha vida - em âmbito académico, laboral...

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil

No post anterior, sobre "Casais que se odeiam", um utilizador partilhou este poema connosco. Gosto muito de Fernando Pessoa em todas as suas versões, por isso deixo-vos com este Álvaro de Campos , que desconhecia. É interessante porque nos recorda que todos somos falíveis. E quiçá admitir o erro seja o primeiro passo para sermos melhores, e para vivermos em verdade. Afastemo-nos da hipocrisia, acima de tudo daquela que impomos a nós mesmos e que vendemos aos nossos vizinhos antes de fecharmos a porta de casa.   Poema em Linha Reta Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submiss...

Os Pássaros

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O meu quinto livro a ser publicado, com o apoio da Coolbooks, é "Os Pássaros". Em março estará nas livrarias, e a seu tempo estará também disponível em e-book . Sinopse: Volvidos seis anos da separação, Diogo e Manuela refletem, em voz alternada, nos acontecimentos que levaram a esse desfecho. Ao ritmo a que a mágoa lhes permite recordar, vão revelando os contornos do seu trauma indizível num discurso intimista e confessional. É-lhes vital esquecer, superar. Mas será que ainda há vida depois de uma perda desta dimensão? «Um breve encontro de mãos. O corpo a ser-me cingido num abraço e depois largado. Os olhos envenenados de sonhos e o teu pai à distância, a repelir-me, a fugir-me por entre os dedos. Água a escapar-se-me da palma da mão. A boca dele era o Pacífico no seu ponto mais profundo, onde a Terra é um abismo de escuridão e de pressão indomável. Eu desejava-o, irracional e imoralmente, inconsciente do que era a ânsia física e do muito que me entorpecia cada movimento. E...