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A mostrar mensagens de outubro, 2024

Cadavre Exquis

Bem sei que os títulos das minhas publicações são cada vez mais pedantes, mas deve-se ao facto de frequentar uma universidade e de estar a transformar-me numa pessoa erudita - à medida que as informações penetram neste cérebrozinho encharcado em aluamento severo. Cadáver esquisito - jogo surrealista, doido, sem trembelho nenhum, que soa mais fino em francês. Um recorte de ideias em que um participante escreve uma pergunta/resposta e outro junta outras sem ver a anterior e, de repente, sai algo tipo o exemplo que a wikipedia nos oferece: “- De que cor é o vermelho? - É verde. - Quem é o teu pai? - É o revisor do comboio para a lua. -O que é a loucura? - É um braço solitário a sorrir para os meninos. - Quem é Deus? - É um vendedor de gravatas. - Como é a cara dele? - É bicuda, com uma maçaneta na ponta.” — O Vermelho e o Verde ( João Artur Silva ,  Mário-Henrique Leiria ) Enfim, dizia que foi um dia estilo  cadavre exquis . Também podia dizer-se que foi um dia sem trembelho. Começou com...

Castanhas e marmelada

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Nos dias 24 e 25 de outubro, tive o prazer de ir até Bragança falar com jovens com idades compreendidas, sensivelmente, entre os 14 e os 18 anos. Esse evento - provavelmente o mais gratificante como "oradora" até ao momento, foi em resposta a um convite da Biblioteca Municipal de Bragança, e veio acompanhado dos meus receios do costume. O de ser longe (6h30 de autocarro a partir de Lisboa!), o de ser perante jovens estudantes - que podem ser incríveis ou um pesadelo, por terem um olhar crítico incrivelmente exacerbado pela idade -, o de me sentir, por vezes, um embuste. Preparei um Powerpoint bonito, no qual fiz questão de falar de muitas coisas que não apenas os livros. Na verdade, acabei por nunca falar especificamente dos meus livros - não fui para os vender -, fui, acima de tudo, para tentar mostrar a importância dos sonhos, de ler, escrever, e de acreditar, aos jovens. Acho que a geração que está a terminar o ensino obrigatório terá de enfrentar desafios muito mais comp...

Experience

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Começar por dizer que o combustível que me move enquanto escrevo hoje é esta faixa de Ludovico Einaudi, que ouvi ad nauseam enquanto escrevia o meu romance histórico de 2014, A Filha do Barão . Nem tudo é uma maravilha quando se toma medicação para PHDA. Bastam-me 30mg de Elvanse para sentir que estou a descer uma rampa muito íngreme a toda a brida, montada num  skate demasiado pequeno para mim e já sem agilidade nenhuma para me escapar a eventuais obstáculos. Parece que entro numa cápsula de tempo e o temporizador está a contar:  estás a rentabilizar o valor do medicamento? O seu efeito químico está a cumprir o prometido?  J á produziste alguma coisa sob o seu efeito?  E a ansiedade - embora não tão intensa como a que a Ritalina me causava - é como uma garra em torno do meu pescoço. Atrás de mim, um coro de cápsulas rosa e brancas:  Trabalha, trabalha, trabalha! Hoje é dia de traduzir. É dia de avançar nos trabalhos de Mestrado. É dia de preparar a apresentação que farei perante as...

#309 GILMAN, Charlotte Perkins, The Yellow Wallpaper

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"I verily believe she thinks it is the writing which made me sick!” Ouvi o  audiobook  do projeto LibriVox no  Spotify  durante uma viagem Évora-Almada, no entanto, penso que o audio nem sequer chegue a 40 minutos. É a prova de que não é preciso um calhamaço para uma obra nos ficar gravada na alma. Quis conhecer esta obra de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935) porque, ultimamente, o livro tem vindo ter comigo por vários atalhos. Volta e meia vem à baila, sobretudo no âmbito da cadeira de Mestrado de Literatura que estou a frequentar, e decidi dar-lhe uma oportunidade. Ouvi-o enquanto chovia fora do autocarro e sem saber nada da autora nem do contexto (sequer o ano de publicação), porque receei que pudesse influenciar-me. Já entendi que as obras acabam por ter mais valor quando há algo de  interessante , de  curioso , de  revolucionário  em torno da sua execução ou da vida do/a autor/a. Contudo, acho que as obras devem valer por si próprias sem necessidade de introduzir referência...

O Pastor

Estou a dormir desde quinta-feira. É domingo. Na semana passada, dormi em Évora terça e quarta-feira. Na terça-feira saí para jantar ao lado do quarto que tenho alugado todas as semanas numa GuestHouse. Sentei-me, olhei para o menu e achei caro. Ultimamente, tenho achado estupidamente caro jantar fora, sobretudo quando comparando o valor de uma refeição fora com outros bens. Um jantar ali equivale a 2 livros em promoção, a 1 noite na GuestHouse a 300 metros da Faculdade, a 5 refeições no bar dos estudantes. A 4 bilhetes Almada-Évora ou Évora-Almada, na rede expresso.  Acontece que meti conversa com o grupo de americanos na mesa ao lado. Quando dei por mim, estavamos a falar da vida. Eles bebiam vinho alentejano, eu fiquei-me pela água com gás do costume. Eram de várias zonas dos EUA, incluindo da Carolina do Norte, recentemente afetada pelo furacão Helene. Falámos de furacões, de vinho, do essencial. Concluímos que a geração deles trabalhou demais: ali à mesa estavam médicos, enfermeir...