Mensagens

A mostrar mensagens de abril, 2020

#248 CARVALHO, Rodrigo Guedes de, Margarida Espantada

Imagem
Opinião: (Em e-book) As famílias amaldiçoadas... Já Tolstoi escreveu, a abrir o seu aclamado romance "Anna Karenina", que “As famílias felizes são todas iguais, as infelizes são-no cada uma à sua maneira.” Devo confessar duas coisas: primeiro, que este é o primeiro romance que leio da autoria do Rodrigo Guedes de Carvalho, segundo que o primeiro ponto se deve apenas ao meu enorme receio de, admirando-o tanto como profissional, me decepcionar amargamente com a literatura que lhe sai das mãos. Avanço com uma terceira confissão: até meio da leitura, estava convencida que lhe daria um quatro, na melhor das hipóteses. E apenas porque, entre uma escrita que não aprecio por aí além, por quebrar com aquilo que diria ser "a escrita clássica", aquela mais polida onde certos vocábulos e maneirismos não têm lugar, surgem relances de pensamentos admiráveis. De vez em quando parava para digerir um ou outro trecho do livro. As temáticas ali contidas foram-se enredando mais e mais ...

#247 HESSE, Herman, Siddhartha

Imagem
Sinopse:  Siddhartha, filho de um brâmane, nasceu na Índia no século VI a.C. Passa a infância e a juventude isolado das misérias do mundo, gozando uma existência calma e contemplativa. A certa altura, porém, abdica da vida luxuosa, protegida, e parte em peregrinação pelo país, onde a pobreza e o sofrimento eram regra. Na sua longa viagem existencial, Siddhartha experimenta de tudo, usufruindo tanto as maravilhas do sexo, quanto o jejum absoluto. Entre os intensos prazeres e as privações extremas, termina por descobrir «o caminho do meio», libertando-se dos apelos dos sentidos e encontrando a paz interior. Em páginas de rara beleza, Siddhartha descreve sensações e impressões como raramente se consegue. Lê-lo é deixar-se fluir como o rio onde Siddhartha aprende que o importante é saber escutar com perfeição. Opinião:  Este foi o primeiro livro que li da autoria de Herman Hesse, naturalizado suíço e vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1946. Hesse aproximou-se da cultura e filosofia ...

O Luto e Abril na Assembleia

Neste texto, procuro confrontar duas ideias que me têm acorrido enquanto assumo este meu papel de dona de casa. Poderia acrescentar-lhe uma terceira ideia, mas a essência do texto são os sacrifícios, as ausências, o desvirtuamento dos rituais e a teimosia do Ferro Rodrigues . Vamos ver se serei bem-sucedida nesse casamento de ideias, porque tenho a firme noção de que se associam aqui algures. Vou começar por dizer que, nos últimos três anos, sepultei três pessoas muito próximas. Quando digo sepultei significa que estava na linha da frente dos preparativos e da escolha dos cetins, e não que fui mera expectadora. Enterrei a avó que me criou, cremei o pai, despejei-lhe as cinzas no cendrário comum do cemitério. Do funeral da avó ficou o grupo da igreja da sua irmã a tocar guitarra e a cantar sobre a Ressurreição. Ficou o atirar das flores para a cova e o afastar-me dali para o calor de vários abraços. Do funeral do pai ficou o caixão fechado por minha escolha, uma exceção que procurava da...

Os favoritos da vida

Imagem
A minha pasta de favoritos no Goodreads  refere 24 títulos que se destacam do mar de livros que li até hoje. Desses 24, alguns mais próximos, outros mais diluídos na memória, decidi escolher 5 para fazer um post sobre os meus livros favoritos de sempre, e porquê . Isto dos livros favoritos é muito pessoal , tal como o é o gosto por música. Independentemente de o nosso género ser punk, por vezes um momento consagra-se ao som de uma composição de blues, e a canção pode não se tornar  favorita , mas torna-se  inesquecível , e parte da nossa história. Cá vão os livros que amei por todas as razões que passo a explicar...   1. O Fio da Navalha, Somerset Maugham Há um filme com Bill Murray cujo cartaz exemplifica melhor a essência de "O Fio da Navalha" do que a própria sinopse do mesmo. Esta é a história de Larry, um americano comum, com a vida mais ou menos planeada - um casamento, um emprego - e que perde todas as suas certezas aquando da sua experiência como piloto de guerra na P...

#246 DOSTOIEVSKI, Fiódor, Os Irmãos Karamazov

Imagem
  "Só Dante pôs os vários mundos assim em coexistência" , diz-nos ainda Bakhtine,  "mas em Dante eles não interagiam." Artigo do Público,  aqui Há imenso para dizer sobre os  Os Irmãos Karamazov , seria uma dissertação interminável, que se multiplicaria várias vezes face ao volume real do romance, posto que cada parte, cada capítulo, cada diálogo e cada personagem daria origem a rios de tinta a seu respeito. Posto isto, talvez deva dizer que o que fica, no leitor, desta obra colossal publicada entre 1880 e 1881, isto é, terminada a dois meses da morte do autor, é uma necessidade premente de reflexão. Reflexão sobre todo e cada tema que nos é apresentado ao longo desta narrativa, em que o narrador se assume presente e inclusive condiciona a opinião do leitor. Mas, mais surpreendente do que esta familiaridade que o narrador estabelece com o leitor, é o facto de cada diálogo, de beleza incontornável, oferecer não raramente perspetivas opostas sobre um mesmo assunto, e ...

A ribeira e os figos, um segundo amor e uma outra vida

Há muitos, muitos anos, gostei muito de um homem que era dez anos mais velho do que eu. Para que importa isso, agora? O tempo atropela-nos, e às vezes quando espreitamos para a vida dos outros é como se nos víssemos a nós mesmos, noutra vida que afinal não foi nossa. Às vezes vou espreitar-lhe a página de internet, só para ver que vida teríamos, se por acaso tivéssemos ficado juntos. Ele é pai de gémeos, dois rapazes. Escolheu para eles nomes que eu própria poderia ter escolhido para os meus filhos - Miguel e Rafael. Despedimo-nos há tanto tempo que não há necessidade de esconder nada. O que importa aqui é, porque gostei eu dele, sobretudo quando eu tinha 12 anos e ele 22, e depois eu 14 anos e ele 24, e por fim eu 16 anos e ele 26? Primeiro porque, ao contrário de muitos homens que conheço, ele construiu o seu caminho a partir de um lar estável, de pais com relação saudável, com base em esforço e em estudos. Nasceu numa aldeia minúscula e nela cresceu e desenvolveu-se como irmão mais ...

Livros tão maus que não deu para parar de ler

Imagem
Há quem ache que ler um livro qualquer é melhor do que não ler livro algum, mas eu não concordo, mesmo porque já tive péssimas experiências com algumas leituras. Deixo-vos os meus traumas literários com as respetivas reviews.  Tem toda a razão todos os que disserem que com estas escolhas literárias só podia acabar em desilusão, mas reparem que há um Nobel no meio!   A Música do Tempo, Margarida Afonso De longe, sem sombra de dúvida e, inesquecivelmente: o pior livro que alguma vez li. Uma perda de tempo total. Uma dondoca fútil, que nada deve à inteligência, com problemas insignificantes a consagrar-se desgraçadamente em baixo, tudo alinhavado pela pior escrita com que alguma vez me deparei. Já o li há pelo menos cinco anos, e recordo-me de não ter conseguido parar, devido ao absurdo dos diálogos, das situações. Recordo-me de a dondoca passear na própria propriedade, apontar um limoeiro e perguntar a um funcionário o que faziam com os limões. Marcou todos os pontos: pelo pior. Em segun...

Quando eu era romântica

Imagem
Acordei ao meio dia e meia, com aquela sensação de ter acabado de ser atropelada por uma carroça de bois. Comei a imprudência de aceitar uma videochamada ainda deitada e, pela primeira vez, olhei para o meu reflexo e vi sinais de velhice. Já tinha visto sinais de cansaço, de desleixo e por aí fora, mas nunca tinha visto traços do tempo no meu rosto. E hoje encarei-me deitada de lado, com duas bolsas acinzentadas e flácidas sob os olhos, pálida e com pés de galinha. Caramba, a idade estará a apanhar-me? Já tenho trinta anos, trinta anos. Depois lá consegui acalmar-me: as heroínas dos meus romances costumam ter mais de trinta anos, uff. Ainda vou a tempo de ser a heroína de um romance. O Rodrigo Guedes de Carvalho é uma pessoa inspiradora, daquelas como há poucas. Hoje trouxe à superfície a minha veia romântica, enterrada há várias primaveras. Encerrou-se o jornal da noite da SIC com a cena final de Cinema Paraíso, um dos meus filmes favoritos de sempre. Mostrei-o há poucos meses às minh...

Desilusão

Ultimamente, a minha casa transformou-se no meu refúgio. Nem tenho vontade de sair, porque a cada vez que o faço fico horrorizada com o que vejo nas ruas durante este estado de emergência. Nos últimos anos deixei quase por completo de frequentar locais públicos, por incapacidade de tolerar o comportamento coletivo dos portugueses. Não digo que os defeitos que aqui destaco sejam só dos portugueses, mas dói-me que também sejam dos portugueses. Deixei de ir à biblioteca para trabalhar, porque a biblioteca, que devia ser um refúgio de silêncio e reflexão, tem sempre pessoas a bichanar em volumes variados, quando não os próprios funcionários. Deixei de ir a estreias de cinema, por muito que queira ver o filme. Cometi a parvoíce de ir ver  A Bela e o Monstro  com a Emma Watson, quando saiu, e posso dizer que houve flashes de máquinas fotográficas ao longo de todo o filme. Quando a cena da dança se insinuou no ecrã, quase ceguei com tantos disparos na direção da tela. Depois fui ao instagram ...