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A mostrar mensagens de março, 2024

#308 MÁRQUEZ, Gabriel García, Vemo-nos em Agosto

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Sinopse:  Todos os anos, a 16 de agosto, Ana Magdalena Bach apanha o ferry que a leva até à ilha onde a mãe está enterrada, para visitar o seu túmulo. Estas viagens acabam por ser um convite irresistível para se tornar uma pessoa diferente durante uma noite por ano. Ana é casada e feliz há vinte e sete anos e não tem motivos para abandonar a vida que construiu com o marido e os dois filhos. No entanto, sozinha na ilha, Ana Magdalena Bach contempla os homens no bar do hotel, e todos os anos arranja um novo amante. Através das sensuais noites caribenhas repletas de salsa e boleros, homens sedutores e vigaristas, a cada agosto que passa Ana viaja mais longe para o interior do seu desejo e do medo escondido no seu coração. Escrito no estilo inconfundível e fascinante de García Márquez, Vemo-nos em Agosto é um hino à vida, à resistência do prazer apesar da passagem do tempo e ao desejo feminino. Um presente inesperado de um dos melhores escritores que o mundo já conheceu. A tradução é de J....

#307 KEEGAN, Claire, Acolher

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Opinião:   Há algo de muito terno e genuíno nos livros desta autora. À semelhança de “Pequenas Coisas como Estas” a autora tece uma obra pequena, apenas com as personagens e os momentos necessários, sem se perder em divagações. Depois, traça a sua rotina, geralmente numa Irlanda pobre onde o povo labuta arduamente por alimento enquanto é fortemente influenciado pela igreja e está sujeito à intempérie. Neste «Acolher», nunca chegamos a saber o nome da personagem principal (ou passou-me completamente ao lado), é uma criança, e isso é tudo o que importa saber. Uma criança que, durante as curtas 65 páginas do livro vai conhecer uma rotina diferente da sua, vai ver o mar, vai comer com abundância, vai andar limpa e bem vestida e, acima de tudo, vai experimentar afeto. É comovente essa estranheza da criança carente e negligenciada para com o afeto. A autora até nisso foi sublime, porque é difícil não chorarmos na cena final. Podia escrever um ensaio de 300 páginas sobre estas 65 da autora, m...

#306 FUEGO, Andréa del, A Pediatra

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Opinião:  Não sei que feitiço me tomou, mas espero que não se fique por aqui. Comecei a ler  A Pediatra  há dois dias, no Kobo. Todas as minhas leituras têm sido no Kobo. Gostava muito da premissa, mas receei que o facto de a obra ser em PT-BR pudesse desmotivar-me - porque poderia exigir um esforço extra a uma leitora já muito preguiçosa. No entanto, a premissa tem outra complexidade para além da anunciada, a narrativa é rápida, vertiginosa. Percebemos que estamos perante uma mulher inteligente e altamente qualificada mas com problemas de relacionamento e um certo desiquilíbrio emocional - segundo Cecília, não precisar de ninguém é força, mas creio que se sente a sua carência e a sua solidão nas entrelinhas da sua voz. Esta pediatra que «não gosta de crianças» é divorciada, vive para o trabalho e a pessoa que tem de mais próxima é a empregada, Deise, que também instrumentaliza a seu bel prazer. No emprego, Cecília é competente, mas não se entrega às crianças, não se enternece com o la...

#305 FERNANDES, Madalena Sá, Leme

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Opinião:  Lido no kobo, não esperei gostar tanto deste «Leme». Por um lado, até cerca de um terço do livro, senti que a questão da violência doméstica, por vezes subtil e até passiva, exigia uma estrutura mais densa, outro peso na narrativa que nunca mais vinha. O livro parece, em certa medida, escrito por uma mulher muito jovem, à qual falta uma certa profundidade. Parece uma voz mais juvenil, sobretudo porque antevemos o seu presente, sabemos que é adulta, mas talvez o livro só funcionasse com esse tom mais pueril. No entanto, na segunda parte da leitura, que me agarrou pelo colarinho e que li de um fôlego, percebi que isto não é um retrato da  vida  da personagem, e que era essa tridimensionalidade da vida da personagem que estava em falta, e que eu continuava a procurar. Refiro-me a relatos do quotidiano em que o tal Paulo, o padrasto agressivo, não fosse a personagem principal. Foi então que me mentalizei de que o livro é sim um  relato da vida com um padrasto abusivo , e vi-me ob...

#304 FERREIRA, Valentina Silva, Vertigens

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Sinopse:  Em finais dos anos 70, no Caniço, uma cidade costeira na ilha da Madeira, todos conhecem Ana Clara, a estranha rapariga que não fala e que passa os dias à janela. Quando Anita Fontoura a vê, também ela presa na sua janela de solidão imposta pelo marido, desenvolve-se entre as duas vizinhas uma amizade inesperada. Décadas mais tarde, de regresso à ilha para enterrar Anita, a sua filha Oti reencontra-se com Ana Clara, sua madrinha, para tentar compreender a história da família, das mulheres Fontoura, da fuga das duas para Lisboa e daquela mãe que foi tão difícil amar. Este é um romance sobre liberdade e coragem, sobre forjarmos nosso próprio caminho, sobre gritos no silêncio. Duas mulheres enclausuradas que o destino uniu e que, juntas, encontraram uma forma de voar.   Opinião:  Em Vertigens , a Valentina Silva Ferreira dá-nos a conhecer um leque de mulheres inesquecíveis. Ainda que as protagonistas sejam, indiscutivelmente, Ana Clara e Anita Fontoura, senti por várias vezes qu...

#303 SILVA, Filipa Fonseca, E Se eu Morrer Amanhã?

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Opnião:  "(...) É cada vez mais difícil lidar com um corpo que falha. Mais comprimidos, mais uma operação, um coração mecânico, uma válvula aqui, uma placa de titânio ali, a carne macerada, os ossos em franca erosão, tudo preso pela ciência da longevidade e por peças impressas em máquinas 3D, como se a morte não fosse parte da vida, mas, antes, uma sentença adiável, até se atingir o limite do conhecimento humano, que, como se sabe, é impossível, visto que este é como o universo e a estupidez..." Depois de um longo jejum de leitura - só tenho lido o que estou a traduzir -, decidi apostar no último livro da  Filipa Fonseca Silva , porque a sinopse promete uma viagem a lugares que nunca tinha explorado na literatura: a sexualidade geriátrica. Ultrapassada uma certa resistência inicial, e auxiliada pelo tacto da autora, que nos conduz por esse mundo em que nunca me tinha permitido pensar com sensibilidade e um toque de humor, aventurei-me na viuvez da Helena. A Helena é uma octog...