A ribeira e os figos, um segundo amor e uma outra vida
Há muitos, muitos anos, gostei muito de um homem que era dez anos mais velho do que eu. Para que importa isso, agora?
O tempo atropela-nos, e às vezes quando espreitamos para a vida dos outros é como se nos víssemos a nós mesmos, noutra vida que afinal não foi nossa. Às vezes vou espreitar-lhe a página de internet, só para ver que vida teríamos, se por acaso tivéssemos ficado juntos.
Ele é pai de gémeos, dois rapazes. Escolheu para eles nomes que eu própria poderia ter escolhido para os meus filhos - Miguel e Rafael. Despedimo-nos há tanto tempo que não há necessidade de esconder nada. O que importa aqui é, porque gostei eu dele, sobretudo quando eu tinha 12 anos e ele 22, e depois eu 14 anos e ele 24, e por fim eu 16 anos e ele 26?
Primeiro porque, ao contrário de muitos homens que conheço, ele construiu o seu caminho a partir de um lar estável, de pais com relação saudável, com base em esforço e em estudos. Nasceu numa aldeia minúscula e nela cresceu e desenvolveu-se como irmão mais novo. Quando eu cirandava pelo interior algarvio, por aquela aldeia esquecida onde ele era o elemento mais jovem, via o seu nome gravado a canivete pelas paredes, pelos muros, no xisto das fachadas. Deve ter sido uma infância solitária, e ao mesmo tempo gloriosa, porque as eiras e os montes da serra algarvia eram dele. Anos mais tarde ele muniu-se de uma mangueira para ajudar a apagar os fogos florestais, mas a cada curva na estrada a paisagem era de desalento, e se me doía a mim, eu imaginava como lhe doeria a ele ver aquela devastação.
Ele era bom, acho que "bom" é algo que é transversal a todos os homens de quem gostei. Era bom e adorava animais. Ainda lhe encontro fotografias ajoelhado no chão com gatinhos ao colo, e mensagens a procurar-lhes um lar. Ele era bom, e era doce, e tinha uma voz suave que consolava e acarinhava. Sei disso porque, quando a minha avó me apanhou de férias lá e deu a minha cadelinha, uma pastora belga chamada Jade, recebi a notícia no telefone do café dele que, aliás, era o único público na aldeia. Reparem que não havia telemóveis, e que qualquer conversa privada que desejássemos ter tínhamos ali, naquele telefone público, separados dos convivas do café por um biombo. Tantas vezes surgia ele descalço - os pais eram proprietários do café, ele ajudava aos fins-de-semana. Durante a semana estudava na Universidade, depois empregou-se numa câmara municipal. Se digitar o seu nome completo no google, surge todo o seu percurso laboral. É assim que sei que se tornou chefe de Direcção de Gestão Financeira da câmara municipal onde trabalha, e se abrir os PDFs públicos que elabora, descubro que o seu município gastou 2974,00€ com o IEFP no mês em questão. Como vêem, há poucos jovens por lá.
Ele era assim: bom, confiável, calado e quieto, amante de animais, gostava de Linkin Park, vestia-se de cavaleiro medieval nas festas da sua cidade, embora nunca tenha descoberto se ele cuspia fogo. Ao cair da noite, sentava-se sob as bunganvílias e às vezes eu acompanha-o, sob aquela abóbada de estrelas magnífica, aquele dark sky que a NASA, mais tarde, havia de reconhecer como local privilegiado para se admirar o universo.
De salientar que nunca tivémos uma conversa indecente, nunca nenhum de nós se insinuou ao outro. Excepto, claro, a minha acalorada carta de despedida quando as férias terminaram e eu, com 12 anos, achei que era boa ideia entregar-lhe um bilhete apaixonado. Tinha 12 anos, e convenci-me que ele não iria levar-me a sério. Seria doentio se me levasse a sério, reconheço-o agora. Mas, aos 16 anos, foi diferente. Soube que teve uma discussão com a mãe por causa de mim. Reparem: outro homem procurar-me-ia, sabendo que eu suspirava a cada vez que ele surgia, descalço, por entre a névoa de fumadores do café. Ele nunca me procurou: trocou ideias com a mãe, que lhe ordenou que se afastasse de mim. Eu achava que ela era má, e mais ainda achei quando um dos frequentadores do café me disse que escutou tal conversa. Agora entendo que qualquer outra mãe aconselharia o filho maior a manter-se longe de problemas. Tinha razão, tinha razão. Mas eu estava apaixonada.
Estendia roupa a cantar canções de amor, andava para ali a rodopiar descalça entre os lençóis lavados, sacudia a saia, afagada todos os animais de rua, até os cães me seguirem para todo o lado e os gatos me permitirem carícias frugais. Escrevia no meu diário acaloradas entradas a respeito daquela paixão proibida. Escrevi o meu primeiro romance em torno desse amor estilo Romeu e Julieta com implicações legais, e chamei-lhe "Doce Setembro", porque o nosso mês era setembro. Subia ao topo da colina a ouvir Norah Jones no meu discman da Sony, e olhava para o quintal dele na encosta, os animais cuidados dele, os muros bem caiados dele, as árvores de fruto dele, e a janela do quarto dele.
De resto, era um homem comum com gostos conservadores, que conduzia uma Renault 4L até à ribeira, onde cuidava de um terreno, e que tinha mãos rudes de homem do campo, que depois usava para carregar ficheiros Excel com as contas do município. Era muito inteligente - isso era unânime, toda a aldeia inchava de orgulho nele. E eu via-me tão bem encaixada naquela vida... a tomar banhos desnuda na ribeira, a descobrir os bancos de areia ao longo da margem e a usá-los como praias privadas, a encher a barriga com os figos maduros que pesavam nos ramos das figueiras, a um braço de distância da água cristalina, a pescar achigãs naquele afluente do Guadiana. A lanchar tomate fresco com sal sobre pão rústico, chouriça e vinho regional... Lembro-me tão bem desses lanches. Aprendi a nadar naquele curso de água, se é que isso significa alguma coisa na vida de alguém: o onde aprendeu a nadar.
Teria sido feliz, eu sei. E agora ele tem 40 anos, continua a gostar de animais. Está mais pesado, possivelmente menos ágil, perdeu quase todo o cabelo. Tem tatuagens, coisa que não tinha na época, e que não consigo conciliar com a personagem que lhe atribuía. Tem as redes sociais cheias de fotografias dos seus meninos gémeos, que com certeza ama e de quem cuidará como pai atencioso que já se adivinhava que seria. Leva-os ao oceanário e a ver os animais em safaris, leva-os à praia e à piscina, em parte, deve viver para eles. E há outra mulher ao lado dele, uma mulher que jamais lhe associaria e que, correndo o risco de padecer daquela velhacaria muito feminina, parece mãe dele.
E pronto, esta é apenas umas das vidas que poderia ter vivido. Há outras.
Dão histórias, e está a apetecer escrever uma fundeada aí: na ribeira e nos figos, no pão rústico e nos banhos em pelota.
Saudades.
Uma memória feliz :), que adorei ler. É aquele tipo de memórias que só os lugares pequenos conseguem oferecer. Os ribeiros, as figueiras, os morangos selvagens... Os sons, as cores, os cheiros tão próprios destes lugares perdidos neste país.
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