Escritores: revoltai-vos

 Uma coerência escandalosa

A semana passada foi mais uma semana negra para a cultura portuguesa. O flagelo anual da atribuição de Bolsas de Criação Literária pela DGLAB voltou a cumprir-se, numa tradição longa e incontornável. Uma vez mais, há padrões, nomes e tendências que se repetem, numa clara demonstração de como o orçamento para a cultura continua a ser monopolizado para alavancar, sustentar ou prestigiar carreiras de um número limitado de criadores oriundos de uma bolha com contornos nítidos e fáceis de identificar. Esta reflexão não pretende insinuar que não há mérito em alguns ou muitos dos contemplados, aos quais dou desde já os parabéns. Nas linhas que se seguem, tornar-se-á evidente o tipo de conduta que aqui condeno, e que vou observando ano após ano.

Todo o meio literário português está refém daquilo a que podemos chamar, de forma bastante leviana, de “crítica cultural”. O problema da cultura em Portugal começa aí, mas quem quiser aprofundar a questão pode sempre ler Chatear o Camões – Inquérito à vida cultural portuguesa, da autoria do infame João Pedro George, que nem sempre opta pela melhor estratégia de comunicação, mas que é exímio a analisar o nosso contexto artístico-cultural em geral, e o literário em particular.

Num estudo em quatro partes, publicado na Sábado, esmiúça a relação próxima entre o Público enquanto legitimador de qualidade literária, por via dos seus críticos, e a Tinta-da-China enquanto beneficiária frequente das suas graças. Assim, reconhecemos dois dos pilares que definem a cultura institucionalizada em Portugal, e quem pode produzi-la sob esse nome: a ascensão dos críticos e do seu gosto literário (numa malha de “interdependência” que nasceu graças a personalidades como António Mega Ferreira, João Barroso Soares, João Paulo Cotrim, e outros)[1], e a comunicação a favor dessa mesma cultura. Depois, esse fluxo vai desaguar (ou beber) em editoras preferenciais, às quais se juntam as entidades públicas e privadas através das quais a “cultura” é divulgada e apoiada (INCM, CCB, CML, DGLAB, etc). Por último, os eleitos para representar o meio cultural português – admitidos a dedo e amparados por toda a rede de influências, nomeadamente em funções de júri, que assim se vai autossustentando. Como observa George, em artigo de 2020 para a Sábado:

 

“Não estamos assim a falar de uma corrente subterrânea do meio literário, mas de um padrão de comportamento tribalista, onde todos dependem uns dos outros para ganhar prestígio, construir reputações, abrir perspectivas de outros trabalhos, ganhar dinheiro.”[2]

 

Se tivermos em conta que o mercado literário português é (?) relativamente pequeno, e que os livros da autoproclamada alta literatura são naturalmente preteridos em prol de outros mais “fáceis”, compreendemos a importância, para um autor, de receber o montante de 15 mil euros para poder dedicar-se à execução do seu projeto literário. Trata-se de um valor que dificilmente irá alcançar com vendas, por muito que os tais meios de comunicação se esforcem por exaltar a genialidade da obra em questão. Para 2026, os 360 mil euros disponibilizados pelo Estado para a produção de literatura e os 270 mil euros destinados somente a Banda Desenhada e Literatura Infantil geraram 1.511 interessados. Mil quinhentos e onze projetos de novas obras para o país. Um número francamente animador, não fossem os resultados terem caído na mesma roleta de probabilidades do costume. É preciso munirmo-nos de certa ingenuidade para acharmos que resulta de mera coincidência.

Já em 2020, era nítido que o Público e a Tinta-da-China pareciam gozar de posições preferenciais na crista da onda cultural nacional. Se havia dúvidas, podemos sempre olhar despretensiosamente para os nomes aos quais a DGLAB decidiu atribuir algumas das bolsas de criação literária para 2026. Importa também referir que o júri foi composto por Isabel Lucas (colaboradora regular do Público), Golgona Anghel (ensaísta e poeta), Afonso Cruz (escritor), pela investigadora Paula Magalhães, da área do Teatro, e os ensaístas João Dionísio e José Bragança de Miranda.


Como fabricar um(a) escritor(a)

Peguemos na notícia avançada pelo próprio Público, a 31 de março deste ano: um dos nomes na categoria de ficção-narrativa é alegremente destacado pela Lusa na publicação do próprio jornal: “Inês Bernardo (coordenadora da Comunicação Editorial do PÚBLICO)”. Mas, para esta autora emergente, não basta a ligação ao Público, é também autora da Tinta-da-China, num duplo jackpot. Portanto, além de se estrear na publicação numa editora que, em 2015, em entrevista ao Observador, garantia não estar “ao serviço de ninguém”, por ser ferozmente independente, também teve oportunidade de apresentar o seu primeiro livro, Agarrar a Faca pelo Gume (2026), no Correntes d’Escritas, festival literário português exclusivo que, regra geral, trabalha com “consagrados” ou tem o condão de “consagrar”. De notar que frequentou a Pós-Graduação em Escrita de Ficção da Universidade Lusófona, com Filipa Melo como docente, participando na Antologia coordenada por esta última, A ficção é a verdade a mentir. Em 2024/2025, com Filipa Melo como membro do júri, foi contemplada com uma das bolsas para a Residência Literária da Fundação Eça de Queirós[3]. Também Rita Taborda Duarte recebeu uma dessas bolsas, na mesma edição. É difícil fechar os olhos à questão de estarmos perante um meio pequeno, em que prestigiar um autor significa também prestigiar o nosso trabalho enquanto docente, ou júri, ou crítico literário. Neste ponto, é de notar que, desde 2022, temos Afonso Reis Cabral enquanto presidente da Fundação Eça de Queirós, parceira na concessão das bolsas da residência literária homónima, tendo sido colega de Inês Bernardo na Pós-Graduação ministrada por Filipa Melo, além de seu colega de antologia.

Na mesma categoria, Ana França, também contemplada com a bolsa, é jornalista com colaborações no Observador e no Expresso e publicou Ali Está o Taras Shevchenko com Um Tiro na Cabeça: Diário da Ucrânia (2023) e Lampedusa (2025) na Tinta-da-China, o primeiro destacado por Isabel Lucas no Público, em fevereiro de 2023.

 

Em família

Que dizer de Ana Margarida de Carvalho e Rita Taborda Duarte, ambas filhas de Mário de Carvalho, também escritor, numa prova de como o talento literário – ou o capital social que advém do reconhecimento literário – é hereditário. Ambas foram contempladas pela bolsa, a primeira na categoria de ficção-narrativa, a segunda na de literatura infantil e juvenil. A primeira recebeu bolsa em 2017, 2022 e estará agora a beneficiar da terceira atribuição desse apoio por parte da DGLAB. Também com Isabel Lucas no júri, Ana Margarida de Carvalho foi a vencedora do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2025, galardão anunciado cerca de uma semana antes da publicação dos resultados das Bolsas de Criação Literária para o ano corrente. Não foi novidade para a família porque, com o mesmo júri, também a irmã, Rita Taborda Duarte, o havia arrecadado em 2023. O valor do prémio não é público, contudo contribui para a aura de prestígio que o meio literário investe no vencedor. Segundo regulamento do mesmo, a distinção “pretende galardoar obras de expressão literária sobre motivos do mito inesiano ou outros aspectos da representação histórico-cultural portuguesa”[4], tão vago como a maioria dos critérios que regem as atribuições de premiações no país. Assim, a mulher sem nariz de A Chuva que Lança a Areia do Saara deve ser uma alegoria de Inês de Castro, exumada e coroada depois de morta.

 

Ética nebulosa

Pode não ser contra o regulamento, mas parece-me claro que atenta contra as regras da moral e da decência. Creio que o mais chocante é o facto de uma autora multipremiada continuar a transmitir o sinal de que não sobrevive do seu talento estrondoso em Portugal, por continuar a candidatar-se a apoios estatais, impedindo outras vozes de surgirem. A verdade é que a atribuição destes apoios liberta os autores de terem de criar livros que vinguem fora do seu pequeno círculo de influências. Basta escrever para meia dúzia de indivíduos com o mesmo pensamento, o mesmo gosto e a mesma formação ideológica e estética. Sem subsídios, estes livros nem existiriam.

Mas saltemos de categoria, para encontrar Raquel Nobre Guerra, também publicada pela Tinta-da-China. Não põe em causa a qualidade da sua poesia, mas não deixa de sublinhar o vínculo entre esta editora em particular e o acesso aos parcos fundos para a cultura em Portugal.

Fiquemos por aqui, porque receio continuar a investigar e a descobrir coisas que me parecem descabidas. Gostaria apenas de ressalvar que esta forma tacanha de gerir a cultura, os seus suportes e os seus fundos no país, lesa gravemente o desenvolvimento cultural de Portugal. Não o faz com intento de ser tribalista, corrupto, de prejudicar ninguém. Mas fá-lo, não obstante, com todas essas marcas e consequências. Aos meus olhos, começa a tornar-se uma espécie de mácula ser-se aceite no seio deste círculo. Apesar disso, continuo a expor esta realidade, porque falamos de fundos públicos,  falamos de transparência, de idoneidade, de cultura, que é o que nos distingue das outras espécies.

Este modus operandi tão enraizado e impossível de desmantelar exclui – por impedir o acesso a apoio e reconhecimento essenciais – autores com estórias para contar, com universos interiores isentos de interesses, pensamentos distintos, talvez até contrários, àqueles em voga. A nossa cultura está refém de um conjunto de pessoas com um mesmo alinhamento estético, que se recusam a permitir que novas ideias floresçam. Porque é isso que devíamos fomentar e premiar em Portugal: ideias, projetos, e não pessoas. Obras, e não carreiras.

 

Uma cultura essencialmente moribunda, que floresce nas margens

Lamento que o país nunca avance, que, como alerta João Pedro George, não tenhamos literatura com personagens inesquecíveis. No seu Chatear o Camões, põe por palavras uma realidade que há muito me assombra, sem que tivesse chegado a formulá-la. Não há, na nossa literatura, personagens – ou sequer enredos, histórias – verdadeiramente marcantes, daqueles que atravessam todas as idades e todas as camadas sociais. Observa que não há um Conde de Monte Cristo, um Drácula, um Sancho Pança ou um, de modo mais ilustrativo, um Pinóquio que seja familiar a toda a sociedade portuguesa, “leitores e não-leitores, eruditos e não-eruditos, académicos e não-académicos”[5].

A nossa cultura não ata nem desata, e as grandes personagens que nos unem a todos são-nos emprestadas pela História, que é o que temos de grandioso: D. Sebastião, Inês de Castro, a padeira de Aljubarrota, que já foge à realidade e assenta no mito. Porquê? Para mim, a resposta é uma só: enquanto o país não permitir que os seus pensadores tenham voz, por não lhes dar condições favoráveis para a expressar, continuaremos a ter uma literatura de nicho, feita pelos mesmos para os mesmos, a uma mesma linguagem, com os mesmos trejeitos, temas e escolhas narrativos. Nunca seremos ninguém lá fora, em termos culturais, como o somos muito pouco cá dentro. Assim como não temos um Van Gogh, dificilmente teremos um Dostoievski.

Citando George uma última vez, porque o expõe de forma tão eloquente:

“A ficção portuguesa é uma das literaturas onde o afastamento entre leitores e personagens é mais perceptível. O fio que liga os leitores às personagens corta-se logo que se acaba a leitura das obras (...). Por muito que tenhamos gostado dos livros de onde saíram [personagens que acabou de enumerar] a triste verdade é que se esquecem depressa”. Para o sociólogo, “a pobreza que reina no jardim zoológico da literatura portuguesa, no tocante a grandes personagens populares, é bem um indicador do artificialismo das nossas obras literárias, do divórcio entre os escritores e o leitor médio, e mostra que é uma literatura interdita ao maior número, onde os escritores vivem em função dos outros escritores”.[6]

Na minha perceção, para o autor português da alta literatura, basta batizar a personagem principal com um nome estranho, ou rabiscar uma miríade de personagens “uncanny”, com hábitos esquisitos, e atirá-los para situações bizarras. Como se fosse disso que se tece (e sobrevive) a memória literária.

 

Nada espero para mim, por ter plena consciência de que, felizmente, há autores e projetos melhores. Mas, enquanto tiver voz, continuarei a lutar por igualdade no acesso ao que é nosso.

 


[1] João Pedro George, Chatear o Camões: Inquérito à vida cultural portuguesa (Maldoror, 2021), 7.

[2] João Pedro George, «O Público e a Tinta-da-China, um estudo de caso: Crítica da crítica e conclusões (4.a parte)», Sábado, 2020, https://www.sabado.pt/vida/detalhe/o-publico-e-a-tinta-da-china-um-estudo-de-caso-critica-da-critica-e-conclusoes-4-parte.

[5] George, Chatear o Camões, 325.

[6] George, Chatear o Camões, 326-27.

Comentários

  1. Olá, Célia! Muito obrigado por partilhares connosco aquilo que é a realidade do mundo literário português. Gostaria de ter a oportunidade de falar contigo privado, caso estejas disponível. https://www.facebook.com/carmen.ezequiel

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