A Paisagem
Há uma semana e meia debatia a paisagem com a última pessoa que conheci nas aplicações de encontros. É um alemão a viver e trabalhar em Portugal há quase uma década, e discutíamos o sentimento de devastação que experienciei durante a minha curta passagem por Hamburgo, em 2014.
Em julho de 1943, a Operação Gomorra arrasou metade das habitações de Hamburgo e matou milhares de civis. A cidade ficou arrasada e, setenta anos depois, eu achei que ainda era capaz de sentir a dimensão dessa ferida aberta. No semblante dos habitantes, na arquitetura modernista da cidade, num ambiente sombrio de reconstrução eficiente, mas que não cura. Não esquece.
Posto isto, a dimensão psicológica de vermos a paisagem que conhecemos devastada por uma catástrofe natural ainda está por apurar. Se somarmos a isso a nossa casa, será como perder a nossa identidade. Ver tudo à mercê da natureza, dobrado ao meio por ventos, arrastado por aluviamentos, pinhais arrasados com os pinheiros partidos ao meio, como meros palitos... Assusta, aterroriza. Em tempos, seria suficiente para nos pôr todos a correr para o templo religioso mais próximo. Para que se fizessem sacrifícios humanos. Para que se oferecesse parte da colheita a deuses pagãos e se dançasse sob a Lua Cheia.
Agora, resta-nos reclamar daqueles a quem confiamos o nosso governo. O governo das nossas vidas. A nossa segurança. A nossa dignidade. Nesta tarde de 31 de janeiro de 2026, um homem de 73 anos morreu após cair do telhado que estava a reparar. Mais uma perda para a família. Mais um final pouco digno: embora morra a zelar pela sua dignidade, a dar luta às intempéries, morre sem assistência. Porque o estado falhou em todas as frentes. É incompetente, despreparado. É embaraçoso. Nada me convence de que os mecanismos de auxílio da União Europeia não foram accionados porque 1) quem deveria accioná-los nem sabia que podia fazê-lo/como fazê-lo, ou porque, sabendo, não quiseram trazer os olhos do mundo para a inaptidão que certamente se testemunha no terreno.
A nossa casa, as árvores que ladeiam as nossas ruas, a paisagem física e natural são parte da nossa identidade. Arrancaram a identidade a mais de 300 mil portugueses. Foi um ciclone, chamam-lhe Kristin. Mas aqueles que regem as suas vidas, que lhes comem os impostos, que deles recebem subvenções para campanhas presidenciais milionárias, limitam-se a aparecer com perguntas em vez de soluções. A carregar bagageiras de carrinhas com água e atum e a fazerem-se filmar e fotografar com discursos de empatia ocos. Cancelam arruadas, mas não usam a sua voz, a sua influência, o voto (figurativo e literal) de confiança dos portugueses para salvar os portugueses.
Uma vez mais, é o povo português que se ajuda a si próprio. Com doações. Com voluntariado. Com entreajuda. Sem uma tenda da proteção civil a orientá-los, sem polícia que controle o acesso a recurso como combustível, sem militares no terreno a acompanhar as operações e a auxiliar. Sabendo que o cenário pode repetir-se ou agravar-se. Nada. Este governo não faz nada.
Nenhum governo faz nada. Nem à esquerda, nem à direita.
Porque Portugal desilude nas esferas mais altas e maravilha nas mais humildes.
Merecíamos mais. E muito melhor.

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