Entrevista a "O que é Português é bom"
1) O que é, para ti, escrever?
Escrever é uma necessidade. Junta várias coisas que pulsam em mim: imaginação, inquietação face ao mundo em que vivemos e à sua História, interesse pelo animal humano, e por aí além. Nesse sentido, “escrever” é-me algo fisiológico. Não considero escrever apenas o estar diante do computador a teclar, mas também o andar por aí em modo zombie a refletir na vida das minhas personagens, a mergulhar em momentos históricos que me fascinam ou sobre os quais sinto que há algo a dizer… É isto.
2) Quando percebeste que querias ser escritora?
Eu nunca senti que queria ser escritora até há cerca de um ano. Também não me considero escritora no sentido clássico da expressão. Creio que quando se nasce a ter de escrever, isto é, quando se escreve independentemente da qualidade do que sai, de chegar a um público ou não, de ser-se publicado ou não, porque nos é tão vital quanto respirar, nunca se pensa que se queria ser escritor, porque essa meta seria a de alcançar a profissão, não a ocupação. Sempre me ocupei de escrever, desde pequena que mantinha um diário, por exemplo. No entanto, só no último ano é que me perguntei se teria estofo para viver apenas da escrita. Creio que preciso de viver, de me misturar com os outros, de andar de transportes públicos para ter matéria-prima para tecer os meus enredos. Por outro lado, tenho a certeza de que seria uma vida prazerosa, uma vida em que poderia desenvolver muita pesquisa e muitos projetos. Assim sendo, eu não sou escritora profissional. A escrita não me ajuda a pagar contas, simplesmente tenho de escrever porque não consigo não o fazer.
3) Escreves apenas pelo prazer da escrita (se depois for publicado tanto melhor) ou já com o objectivo de publicar o livro?
Boa questão. Costumava escrever sempre pelo mero prazer da escrita, e apenas isso. Daí que me tenha sabido tão bem cada elogio dirigido aos meus livros, depois de publicados. Não fiz nenhum esforço no sentido de torna-los “vendáveis”. Ultimamente, dei-me conta de que é provável que qualquer livro que escreva encontre escape numa editora. Isso significa que tenho alguma preocupação com o leitor – não com a editora em si -, tanto que tenho livros na gaveta que sinto ainda não ser o momento de publicar. Sucede que os livros carregam mensagens, tocam em cordas emocionais e obrigam a reflexão (se tiverem um mínimo de conteúdo). Tenho mais cuidado com as mensagens que passo.
4) Sempre que começas a escrever um novo livro, de onde surgem as ideias?
Posso dar vários exemplos de onde surgem as ideias. Algumas surgem de livros de História, momentos específicos que me intrigam (A Filha do Barão, por exemplo). Outras vão-se desenvolvendo a partir de situações que abomino e que me indignam, e que depois me apraz esmiuçar (como no Demência). Neste momento estou a escrever um conto sobre uma cozinheira mal paga que vive num quarto alugado, e tive essa ideia a ver um episódio de um reality show bem conhecido. Quanto mais aquela mulher simples se expressava, sem nada exigir, nem nada se propor a fazer para mudar as próprias circunstâncias, mais eu começava a tecer um cenário ao seu redor. Não tendo material para um romance, decidi fazer da sua história (entretanto muito ficcionada) um conto.
5) Descreve-nos, por favor, um pouco o teu processo de escrita.
Quando o livro assenta em pesquisa histórica, pesquiso durante meses. Para a Filha do Barão reuni pesquisa durante ano e meio. Comprei imensos livros, li sobre a época, vi documentários, pus-me no Louvre diante dos quadros do Jacques Louis David, a pensar que aquele género de situação estava a passar-se com o Napoleão em França, e que Portugal bem podia preparar-se para o que vinha aí. Regra geral traço um esquema e tento segui-lo, mas é sempre inevitável que o esquema acabe por ser metido na gaveta quando as coisas começam a andar à velocidade de cruzeiro, e como consequência as personagens ganham vontades.
6) Fazes planos antes de começar a escrever um livro?
Sim, mas raramente os sigo.
7) Quanto tempo levas a escrever um livro?
Depende. A Filha do Barão, com quase 600 páginas, demorou seis meses desde que escrevi o primeiro capítulo. A sua sequela, Uma Mulher Respeitável, com cerca de metade do tamanho demorou o triplo do tempo. Foi um livro que se debateu mais. Em 2019 escrevi um livro de 300 páginas em quatro meses. Um amigo meu diz que entro em “transe”, mas nem sempre esse “transe” está lá para agilizar as coisas.
8) Quando a história se desvia do plano inicial, pode obrigar a rever e reescrever partes. É mais difícil reescrever ou escrever pela primeira vez?
É muito mais difícil reescrever. À segunda a emoção morreu, aquilo que foi instinto tornou-se qualquer coisa de racional, de técnico. Não sai tão bem.
9) Sentes que as personagens lideram o processo de escrita? Ou é da total responsabilidade do autor?
As personagens ganham vida própria, sem dúvida. Quantas vezes não chego a uma encruzilhada na história e penso “é aqui que M faz x a Z”, e de repente M tornou-se noutra coisa, e é-me claro que seria incapaz de matar Z como tinha previsto. Então torna-se um livro sobre isso: sobre um plano, uma intenção, que entretanto mudou. Uma pessoa que evolui, porque tudo é mutável e o tempo e as mudanças que opera nas pessoas são um tema que gosto muito de desenvolver.
10) Vamos ter livro novo? Se sim, para breve?
Sim, creio que ainda em março estará no mercado o meu quinto livro. “Os Pássaros”! Estejam atentos e venham à apresentação!
11) Quais são os autores que te inspiram?
Durante anos não consegui identificar-me com autores que me “inspirassem”, mas depois, enquanto lia “À Espera no Centeio”, escrevi um livro de 140 páginas em três dias, e a linguagem esteve sempre subjugada à do Holden do livro. Pouco depois, a ler Maugham, que adoro, percebi que a polidez nas minhas personagens, a calma intrínseca do meu repórter noutro livro que escrevi em 2019, me vinha da gentileza e da educação habituais nas suas personagens. Daí que talvez deva dizer que depende do que ande a ler no momento!
12) O que gostas de fazer quando não estás a escrever?
Gosto de ver filmes, gosto de ouvir música e de dar colo aos gatos. Também gosto mesmo muito de sair para comer crepes com Nutella ou Sundae de caramelo e amêndoas. Leio muito e, nos últimos dois anos, retomei o ritmo de leitora desenfreada que tinha começado a perder com os anos. Por isso, leio. Ler é essencial para escrever.
13) O que é que os livros (os teus e os dos outros autores) te dão?
Dão-me tanta coisa! Dão-me outras vidas, dão-me viagens que ficam para sempre, dão-me um maior conhecimento de mim mesma e da natureza humana através dos dramas intemporais das pessoas que povoam aquelas páginas.
14) Enquanto leitora, qual o teu género favorito?
Os ditos clássicos podem ser considerados um género? É que quanto mais leio clássicos mais me afasto de todo o resto…
15) Escreverias um livro de um género fora da tua zona de conforto? Um livro de ficção cientifica, por exemplo?
Eu gostava MUITO de escrever um livro de fantasia ou de ficção científica. Não está fora de questão, só ainda não me sinto preparada.
16) Como é que os teus familiares, amigos e colegas de trabalho reagem a esta tua faceta de escritor?
Alguns vêem glamour onde ele não há, outros acham normalíssimo porque hoje em dia toda a gente escreve. A minha avó tinha muito orgulho nesta minha faceta. Acho que é a admiração natural de quem olha para alguém que faz algo que não conseguimos fazer, porque não é “a nossa cena”. É o que sinto por pessoas que mantém rotinas de exercício físico.
17) Para finalizar, fala-nos um pouco dos teus livros publicados. Qual é o teu favorito?
Não consigo dizer qual é o meu favorito… Todos envolveram muito trabalho e um misto de prazer e frustração. De algum modo, para quem cria o livro, a coisa nunca parece bem terminada. Conforme o tempo passa, e vou tendo novas perspetivas sobre as coisas, sei que diria tudo de modo diferente. Mas ainda bem que a publicação e o leitor encerram o livro.
18) Qual foi mais difícil de escrever?
Acho que o que me foi mais desafiante foi “Uma Mulher Respeitável” e, por isso, quando o vi cá fora nem podia acreditar. Simplesmente não conseguia encontrar um ângulo para contar aquela história.
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