Rayuela - ii





«- A pintura é outracoisa, não é um produto visual – disse Etienne. – Eu pinto com todo o meucorpo, e nesse sentido não sou assim tão diferente do teu Cervantes ou do teuTirso de não sei quantos. O que dá cabo de mim é a mania das explicações, oLogos entendido exclusivamente como verbo.
- Etcétera, disseOliveira, mal-humorado. – Por falar em sentido, a vossa conversa parece umdiálogo de surdos.
A Maga cingiu-se aindamais contra ele. «Agora esta vai dizer alguma das suas asneiradas», pensouOliveira. «Primeiro precisa de esfregar-se, de decidir-se epidermicamente.».Sentiu uma espécie de ternura rancorosa, algo tão contraditório que devia ser apura verdade. «Seria necessário inventar-se a bofetada doce, o pontapé deabelhas. Mas neste mundo as últimas sínteses continuam por descobrir. Pericotem razão, o grande Logos vela. Que pena, fazia falta o amoricídio, porexemplo, a verdadeira luz negra, a antimatéria que tanto dá que pensar aGregorovius.»

cap. 9

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