Escrita por fórmula

Como escritora, com certeza terei as minhas manias e os meus pontos recorrentes. Há assuntos que, de tão pertinentes, de tão pessoais (mesmo sem o serem), insistem em revisitar todos os meus livros. A violência doméstica, por exemplo, é um tema que me é difícil de contornar, e o motivo é simples: está em toda a parte. Em cada aldeia deste país, em todos os tempos que eu escolha para escrever. Como não criar um novo calhamaço em torno dela? Com muita força de vontade... Há mais a dizer, digamos outra coisa num outro volume.


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Ontem à noite estava a ler um livro da Nora Roberts que a minha mãe me trouxe. É da Harlequin e compila duas histórias num único volume. Cada história tem cerca de 250 páginas. Tinha lido a primeira há uma semana, talvez, e atirei-me à segunda porque tinha o cérebro demasiado parado para me lançar a um livro bom. Costumo ler estes livros mais light como se servissem para limpar o paladar, função que cumprem com louvor.


 


Qual é, então, esta questão em torno da escrita por fórmula?


Acho que não temos dificuldade em nomear uns quantos autores que se apoiam num nicho específico, numa fórmula reproduzida a cada novo volume, para construírem o seu percurso literário e fidelizar leitores.


Nora Roberts é, sem dúvida, uma dessas escritoras por fórmula. Tanto o é que num livrinho em que os editores compilaram dois enredos da sua autoria ficamos na dúvida se ainda estamos a ler a mesma história. A premissa é a mesma: mãe solteira, filho rapaz, acaba de se mudar (ou precisa de mudar-se), muito independente (na realidade cheia de medo de uma nova relação devido a traumas passados), tipo simpático, ambos lindos de morrer. É tão parecido que dói... Parece que o autor teve um esforço mínimo de imaginação para pôr este livro cá fora e receber os direitos de autor. E funciona, não estou a dizer que não funciona. Quando quero um livro lamechas, com final feliz garantido, pego nestes livritos feitos à medida para não me defraudarem as expetativas. Não se esperando muito, o sucesso é garantido!


Talvez aquilo que sai mais caro a um autor seja precisamente a imaginação. Por isso temos alguns autores a regressar aos mesmos temas, a alinhavá-los segundo a mesma fórmula, uma e outra e outra vez.


 


Alguns exemplos abaixo:


Dan Brown (cria-se uma personagem indispensável a investigações, mas ainda assim leigo nas questões policiais/legais, e constrói-se uma série em torno dele. A pessoa que estiver a patrocinar as suas descobertas é, quase decerto, o vilão!)


José Rodrigues dos Santos (ler descrição para Dan Brown);


Nicholas Sparks (gente a passear de barco, a beijar-se à chuva, o problema de um ter dinheiro e outro não, geralmente é a rapariga de classe alta e o rapaz carne para canhão numa obra qualquer);


Margarida Rebelo Pinto (mulher muito independente, mas na realidade carente até à quinta casa, muito liberal a nível sexual, dividida entre dois - ou mais - homens, sendo que nenhum deles a trata especialmente bem e ela passa as páginas todas do livro a tentar esquecê-lo mas a vê-lo em cada pacote de leite);


Sveva Casati Modignani (foi a minha grande desilusão, porque consegui avançar bem na obra dela no fim da minha adolescência antes de descodificar a fórmula. Mas cá vai: rapariga linda de morrer do Sul pobre e socialista de Itália é cobiçada - ou apaixona-se - por um barão das indústrias de Milão e toda a gente lhe diz a cada três páginas como é linda, forte e maravilhosa, e que superou imenso);


Lesley Pearse (no caso da senhora Pearse bastaram-me três livros para retirar a fórmula: mulher linda de morrer é admirada por toda a gente ao seu redor e elogiada, mas ela não se acha assim tanta fruta e tudo de mal que lhe pode acontecer acontece, isto enquanto toda a gente salienta o seu azar e a sua força colossal!)


Nora Roberts (a acrescentar ao assunto lá de cima: mulher das artes ou homem das artes fica obcecado com pessoa que conheceu num encontro casual e a arte daí por diante só funciona com o convívio com o outro. A dada altura, ele vai dizer "estou a cortejar-te, ainda não reparaste?" e ela vai dizer "porque é que não fazemos sexo?", porque elas são sempre muito desinibidas e têm a iniciativa. Também pode dar-se isto tudo mas com fadas, elfos ou bruxas à mistura, numa Irlanda que os irlandeses não reconhecem como sua)


Outros há que pegam em temas universas - quais temas, é o amor, pronto! - e esmiuçam-no com frases que se querem chocantes, reveladoras, life changing! Mas que são só ar. E conseguem vender muito, mesmo muito, a plagiar o próprio trabalho, a fazer copy/paste e reciclagem do que lhes trouxe a fama em primeiro lugar. Por sorte, as pessoas crescem e vão-se enjoando. Muitos desses autores da nova geração de pseudo-sentimentais não sabe - ou não consegue mesmo - escrever um romance, no sentido formal da coisa.


Escrever um romance é difícil, ah pois é bebé.


Questões prementes: quais são os escritores de fórmula a que voltamos sempre? Podemos considerar os escritores de fórmula tão talentosos como os escritores que se reinventam a cada livro, trazendo novos temas, novas inquietações ao leitor?


O escritor de fórmula será um mero empreendedor (será a escrita o seu ganha-pão, o seu emprego das 9h às 18h?), enquanto os escritores de talento ganham menos mas a escrita é a sua vocação, o seu dom? O jeito para as palavras, como para qualquer arte, será mesmo um dom ou pode ser treinado? Podemos exercitar a imaginação, a linguística e a inteligência para conceber romances infalíveis no mercado, ou a capacidade de criar vidas é inata? Podemos ser todos, mediante muito treino, Cristianos Ronaldos do mundo editorial?


Duvido.

Comentários

  1. Optimas dicas para saber em que autores não devo perder tempo.
    Beijinho.

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  2. Finalmente consegui vir ler o teu post!
    Sveva foi uma autora que também devorei na adolescência. Já há muito tempo que não leio nada dela. Tenho aqui na estante um dela em que a personagem principal é homem. Estou curiosa para ver o que sinto voltar aos livros dela ao fim de tanto tempo.

    Há muito autores de fórmulas. Não acho que seja bom ou mau. É simplesmente um caminho que cada um escolhe. Não acho que seja falta de imaginação ou criatividade. Penso que é mais a facilidade em manter-se num lugar conhecido e confortável. Apesar de identificar as fórmulas eu gosto de ler estas histórias. São livros bons para descontrair, mas devem ser lido com algum espaço entre eles.

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  3. Concordo, claro! Desses autores sabemos sempre o que esperar. " São livros bons para descontrair, mas devem ser lido com algum espaço entre eles." Este é o segredo!

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  4. A Lesley tem alguns, poucos, onde foge ao modelo. Poucos. Mas tenho lido tudo o que sai dela, à excepção dos últimos três por saturação, e há raros casos em que não é tanto assim. Mas concordo e também os bebo para limpar. Assim tipo benuron.

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  5. Obrigada por este miminho. Na mouche! E ainda me ri! 👏

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  6. Ahahah. Ainda bem que gostaste.

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  7. Já li pelo menos um livro de todos esses escritores (excepto José Rodrigues dos Santos, já me bastou o Dan Brown, não quero perder tempo em cópias sofríveis). Romances que saem da fórmula (ou assim me pareceram) são os da tetralogia "Série Napolitana" da Elena Ferrante. Muito crus, mas muito bem escritos e a darem que pensar.

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  8. Spoilers de literatura, obrigada. É de verdade, gosto de saber à priori se posso ou não gostar.
    Ao ler lembrei-me do autor Jostein Gaarder cujo "Mundo de Sofia" me prendeu aos 14 anos. Fui comprando outros livros dele, pensando ter arranjado um autor ao qual ia ser fiel... ERRADO (mas com esperança).
    Ao comprar o "O Castelo nos Pirineus" (autografado, yeeee)... desilusão, achei que estava a ler Nicholas Sparks e não acabei de ler, tal a desilusão...
    Mas tenho tantas recordações do "Mundo de Sofia", ainda não vou desistir dele.

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  9. Eu li o Mundo de Sofia aos 16, aquando do exame final de Filosofia. Achei que a minha professora não me tinha ensinado nada, nem motivado. Então, li-o e apaixonei-me por filosofia. Achei um modo muito inteligente de colocar a coisa... Mas nunca mais li nada dele. Boas leituras e sorry about those spoilers!

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  10. Nunca li livros dessa lista e do Dan Brown apenas vi as adaptações cinematográficas. "Fórmula" não é ausência de qualidade, nem sempre. Agatha Christie. Alguém nega que segue uma fórmula? É a escritora mais traduzida de sempre, a Rainha do Crime. Li a maioria dos livros que escreveu, uma boa escola para aprender a escrever mistérios. Mais recente, Ken Follet, outro escritor que descobriu a sua fórmula para o êxito. Li apenas dois livros, e não os mais conhecidos dele. São competentes, apreciei em especial a forma como consegue manter em jogo uma multidão de personagens. Se me empolga muito o seu tipo de escrita? Nem por isso. Poucos escritores conseguem viver da sua fórmula, fazer da escrita um ganha pão. Para isso, qualquer escritor tem sempre de vender muito livro, outras coisas ajudam: que sejam traduzidos, ou adaptados a jogos vídeo, cinema, peças de teatro, etc. Dizer que por terem encontrado uma fórmula não têm talento para a escrita? Não sei se é bem assim. E há fórmulas e fórmulas. A Rebelo Pinto é fraquinha, fraquinha, muitos furos abaixo de Dan Brown. Sinceramente nem sei bem se ela tem uma fórmula. Li metade do primeiro livro que escreveu e desisti. Não sei se entretanto melhorou. A escrita é sempre aprendida e depois treinada. Muita hora a escrever e a ler, muita capacidade de observação do mundo, muito sentido crítico, pulso criativo, ou seja, o escritor tem de ter algumas qualidades que adquire e desenvolve. Se por acaso tiver uma predisposição para a escrita e não a exercitar, nunca será um escritor. Só isso não chega. Escrever exige apuro contínuo e pesquisa. Não é um dom inato. Todos podemos escrever, poucos podem ser verdadeiros escritores e poucos ainda poderão viver disso. De vez em quando, acredito, aparecem Cristianos no universo da literatura, mas muito, muito de vez em quando. A maioria dos melhores não passam de Figos. E está certo.

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  11. Oi, oi
    Certo, nada contra as fórmulas. Eu própria recorro a essas fórmulas quando busco satisfação garantida. A reflexão do texto é em torno disso, mas também em torno do modo como essa fórmula faz um autor ou a sua carreira. E siiiiim, Margarida Rebelo Pinto em nada de compara a Dan Brown. Mas por ex., e tendo mencionado Ken Follett, ele dispõem de um escritório com uma equipa que o ajuda a montar os livros, a pesquisar, a ter ideias, a despachar livros a um ritmo taylorista (deu inclusive numa peça da SIC há uns anos). Eu não consigo respeitá-lo como autor por isso; porque transformou a escrita em business, o produto que sai da sua fábrica é facilmente comestível, mas é fast food. É preciso estarmos na mood para fastfood para aceitarmos que nos alimente dessa sua linha de montagem... Sabemos que fez aquele livro para nos entreter e para lhe darmos, em troca, o nosso dinheiro e a nossa divulgação. Isso é-me estranho em qualquer arte. Admiro, sim, os escritores que escrevem para si mesmos, à revelia dos tempos, na incerteza de isso lhes trazer ou não, retorno. Livros que inquietam, e não que apaziguam os leitores...

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  12. Parabéns pelo destaque. Gostei muito da reflexão.
    Nicholas Sparks desisti ao 3o livro. O Dan Brown português ainda li uns quantos mas tb já desisti. Tive a minha fase Nora Roberts mas tb já "larguei". Desses autores que referes, a que gosto mais é Lesley Pearse mas já não leio nada dela há muito tempo. Há tantos livros bons para perdermos tempo com ideias já batidas.
    O meu "guilty pleasure" cai mais para o lado dos policiais nórdicos como Jö Nesbo ou Camilla Läckberg. Também se revestem dessa característica que referes, têm uma fórmula mas, às vezes, até sabe bem.


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  13. Hello!
    Todos temos os nossos guilty pleasures, é natural. Os meus são as séries da Lisa Kleypas, Julia Quinn, e de vez em quando ainda consigo digerir um da Nora Roberts, mas num misto de querer lê-lo mas sentir que não me cai bem (o mesmo que sinto quando vou almoçar ao McDonald's... irresistível mas já sei que vou ficar a arrotar a pepino o dia todo).

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  14. Cláudia Ferreira de Andrade20 de fevereiro de 2020 às 19:18

    JRS comigo foi muito mau, comecei pelo livro que era praticamente O Código Da Vinci do Dan Brown é fiquei por aí. Do Dan Brown li 3, um deles fora da série do Robert e o 3o porque fui a Roma e achei interessante ler o Anjos e Demónios, para depois ver o Tom Hanks a correr no filme. Nicholas Sparks também li bastante na adolescência e MRP também, a idade tem destas coisas, e os gostos vão-se aprimorando com o tempo. 50 Sombras de Grey foi toda outra fórmula (não li esses, mas li parecido na Sylvia Day): homem rico, mulher tolinha, tautau, muito trauma na infância, muito sexo tanto que até se salta essas partes depois do primeiro livro... Falaste na Quinn num comentário, é a que resiste ao fim destes anos e mesmo assim os últimos que li já foram a arrastar. Cada vez mais evito séries, se calhar por isto mesmo que falas, e procuro quase sempre autores que nunca li, na expectativa. Em relação ao romance, desde que um autor achou "romântico" fazer uma comparação com papel higiénico, e ele vende, não sei que diga sobre isso

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  15. Meu Deus, houve um autor que comparou o amor a papel higiénico? Parece-me que só há um mau o suficiente para fazer uma coisa dessas xD

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