Casais que se odeiam

Acordei com um estrondo e abri os olhos para a escuridão absoluta do meu quarto. As persianas não estavam completamente fechadas, mas havia pouca luz a projetar-se nas paredes. Significa que era muito cedo. O telemóvel devolveu-me a hora: 05h22. O estrondo devia-se a uma porta que batia, e que voltou a bater. Ecoou por todo o prédio, galgou talvez dois andares e acordou-me no meu cantinho do edifício. Arrancou-me ao sono. Repeti várias vezes para mim: quem será o boi? E depois, para poder voltar a adormecer satisfeita, pensei em escrever numa folha A4, que depois deixaria exposta na porta do prédio, a seguinte mensagem:


"Quem foi o boi que bateu com a porta às 05h22 da manhã como se fechasse o portão da quinta?"


Neste prédio vive pelo menos um casal que se odeia. Já no outro prédio também vivia pelo menos um casal que se odiava. Do lar do casal que se odeia, escorrem tentáculos de tinta escura escada acima e escada abaixo, de veneno amargo e letal. Chegam-nos gritos, ofensas, pormenores da sua história e da sua vida íntima que preferiríamos ignorar. Num dia de verão, de janela aberta, ouvi a vizinha dizer ao marido "Gostas tanto da tua mãe, podias f**ê-la a ela". Continuei a lavar a loiça, mas com essa teima: porque é que as pessoas insistem em conviver, dormir, comer e procriar, com pessoas que odeiam?


Como é que alguém é capaz de mandar o seu companheiro para aqui e para acolá, e depois à noite deitar-se ao seu lado? Cair na vulnerabilidade do sono a seu lado? Babar-se na almofada a seu lado?


Porquê que as pessoas que se odeiam fazem isso aos filhos, à família, aos vizinhos? Como conseguem criar duas existências? Uma que emerge do prédio, de família feliz e sorridente, e outra entreportas, insatisfeita e tenebrosa? Destilam ódio, mágoas, raiva. A toda a hora gritos - eu não tinha o hábito de ouvir aqueles gritos, mas desde que me chamaram à atenção que os sinais estão todos lá. Aquele rasgar desesperado da garganta, o desprezo latente, as portas a bater a todas as horas, as ameaças. De vez em quando, um deles vai fumar um cigarro à janela e fica a gritar ofensas e acusações para o interior. Todo o anfiteatro almadense pode escutar, se quiser.


Às 05h22 acordaram-me, e talvez ao prédio todo. Porque se odeiam. Porque a essa hora já conseguiram ofender-se mutuamente. 


O que lhes falta? Coragem para tentar com outro? Coragem para ficar sozinhos? Dinheiro para pagar as contas? Admitir que erraram quando encetaram aquela relação? Como é que alguém é capaz de voltar para casa no fim de um dia de trabalho, apenas para se rebolar no lodo do seu desgosto relacional?


Que triste. Onde pára a dignidade?

Comentários

  1. Belo texto. Tenho um casal de vizinhos assim. São jovens (ela com cerca de 28 anos e ele com 33) têm um filho. Discutem com o objectivo de toda a vizinhança ouvir, e ouvem. Já perderam todo o respeito um pelo outro. Insultam-se com palavrões horrendos. E também faço a mesma pergunta: porque é que ainda estão juntos? Como é que conseguem estar juntos? Não consigo perceber. E também não consigo perceber como é que e alguém se deixa desrespeitar tanto assim.

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  2. O anónimo "ali de cima" sou eu. Não sei o que se passou.

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  3. É sado-masoquismo... e a coitada da criança a aprender aquilo como uma relação "comum".

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  4. na minha opinião, quando duas pessoas gritam uma com a outra não tem de ser por ódio.. pode ser raiva por não se sentirem escutadas. há quem grite porque acredita que assim tem mais razão. há quem grite porque há muito tempo que é agredida psicologicamente. há quem grite por medo. há quem grite por se sentir frustrada mas ainda não está preparada para desistir. o oposto de amor é medo. não conheço o ódio, mas acredito que não tem nada a ver com a razão porque duas pessoas gritem uma com a outra.

    beijinhos imensos, gostei muito de ler as tuas reflexões e ainda bem que conseguiste voltar a adormecer

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  5. Olá, excelente texto e inspirado.

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  6. Querida, até o Pinto da Costa quer saber quem é o boi.
    Ele pensa que não é ele.
    Mas a única maneira de descobrir quem é o boi, é arranjar uma boa vaca, ou uma vaca boa.
    Será que não se arranja uma, aí no prédio?

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  7. O que falta é tão simplesmente o que escreveu no último parágrafo:
    - Coragem para tentar com outro;
    - Coragem para ficar sozinhos;
    - Dinheiro para pagar as contas;
    - Admitir que erraram quando encetaram aquela relação;
    ...e porque secundarizam o princípio 'dignidade'.

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  8. E amor-próprio, esqueci-me do amor próprio.

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  9. Boa, às vezes é isso mesmo só uma vontade imensa de ser ouvido ou ter razão...poucas vezes será ódio mas é uma aprendizagem para a relação...gritar não é sinal que se é mais ouvido.

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  10. Pode ser ódio ou não, mas o que vem para fora é ódio...

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  11. E cada vez mais se "descobrem" esses casais que se odeiam... Existem muitos, alguns "escondidos" pela vergonha que sentem por se odiarem e continuarem juntos... E é triste, muito triste.

    Parabéns pelo merecido destaque!

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  12. Boa tarde

    Não com essa intensidade, mas sim, vivo numa casamento acabado. Não há gritos, não há bater de portas nem se incomodam os vizinhos, mas na sua essência é de fato um lodo. Um lodo que prende a amordaça donde só sairei se conseguir independência financeira, o que até à data, não aconteceu. E sim, trabalho. Sempre trabalhei. Sou feliz ? Obviamente que não. Sou mãe.

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  13. ... e há tantos casamentos acabados! E coragem para mostrar ao mundo?

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  14. Olá Célia.
    Não sei se já alguém mencionou isto por aqui mas anos de abuso e negligência emocional durante a vida geram adultos inseguros e de baixa auto estima que acreditam sinceramente que é esse tipo de relação íntima que merecem. É um círculo vicioso de más relações difícil de quebrar. Quem lá está ou esteve sabe como é e sabe que não é saudável. Mas acreditam que é a única coisa que têm.

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  15. Boa tarde. Lamento ouvir isso, mas cumprimento-a por ter coragem de admiti4 que, por algum motivo, a sua vida trouxe-a a um casamento que não a faz feliz. Deixe-me apenas dizer-lhe que espero que consiga alcançar a sua independência financeira e que, uma vez atingido esse objetivo, não deve deter-se pelos filhos, tenham eles que idade tiverem. Ninguém desejou mais que os meus pais se separassem do que eu...

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  16. Adorei ler este pist. Descreve tantas verdades...

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  17. Por curiosidade, ainda hoje acabei de ler um livro de Freud sobre as consequências dos pais e da infância naquilo em que nos tornamos enquanto adultos. É natural que pessoas que não foram estimuladas e valorizadas achem que uma relação dessas é tudo aquilo a que terão direito. Mas há-que ter fé! E acreditar pelo menos no mote (sempre que possível $): antes só do que mal acompanhado.

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  18. Boa noite.
    Excelente texto!
    Já vivi em 3 prédios diferentes. O casal que se odeia esteve sempre presente. Não sei se por ser comum nos dias de hoje um casal insistir numa relação infrutífera, ou porque sou mais atenta atendendo que sou solteira. 😅

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  19. Pois é, o solteiro até se sente privilegiado uma vez na vida ... vive la paix!

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  20. Dinheiro. Fica mais barato viverem os dois nessa situação, do que cada um fazer a sua vida.

    É muito fácil vir escrever sobre a vida dos outros sem se saber as limitações e as consequências de um divórcio ou uma separação.

    Talvez quando isso vos acontecer, e tiverem que ponderar este e outros factores, talvez entendam o porquê do casal continuar junto.

    Escrever é mais fácil do que viver.

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  21. Olá!
    O caso que eu conheço melhor é d dos pais do meu namorado.
    Eles simplesmente perderam o respeito um pelo outro. Mas o que me faz confusão é um dias eles chamam nomes um ao outro , dos piores que possa haver é no dia seguinte vão dar um passeio como se nada tivesse acontecido. É isso que eu não sou capaz de entender. E o que custa é que eles bem nem pensam nos filhos. Um dia mais tarde vão perceber o porquê de eles não quererem saber deles!

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  22. Bom dia. O meu texto não tem o objetivo de julgar as pessoas que continuam juntas por limitações de dinheiro, tanto que é uma das razões para essa convivência tóxica que aponto no final. Mas infelizmente o dinheiro não é o único motivo. Conheço casais assim que com a maior facilidade iria cada um para o seu lado, portanto estamos a falar de outro tipo de dependência emocional nesse caso. O principal aqui é deixar claro que tantas vezes os vizinhos, filhos e familiares são vítimas colaterais desse tipo de azedume, e que acabam envolvidos sem querer, nomeadamente ouvindo as ofensas que atiram um ao outro, ou levando com o bater das portas, ou em casos mais graves tendo de chamar a polícia. Quanto aos filhos, sofrem. Enquanto sofrerem, ótimo: significa que ainda não se habituaram. Quanto deixarwm de sofrer, é uma pena, porque se acostumaram e passaram a achar essa dinâmica de relações normal. De tal modo que podem vir a envolver-se em relações semelhantes em que, com ou sem dinheiro, não há qualquer respeito pelo outro. Por último acrescento que quando se ofende o nosso companheiro, ainda para mais diante de um prédio inteiro, também estamos a emporcalhar-nos. Estamos a dizer "não vales nada, mas eu escolhi-te, por isso também não devo ter lá grande discernimento."

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  23. Pois, depois essa dualidade. Toda a gente sabe que se detestam, mas no facebook têm a foto do perfil com o seu mais-que-tudo a celebrar 20 anos juntos...

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  24. As perguntas são bem feitas e dão que pensar. Também fico a pensar sobre a possibilidade de os vizinhos (de prédio e não só) se ouvirem uns aos outros, pelo menos parcialmente. Leva-me a pensar porque há várias perspetivas, o aspeto moral e tantas outras coisas a considerar. Obrigado pela publicação.

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  25. Este comentário anónimo é exagerado. Eu li a publicação e fiquei a achar que a autora teve em conta "as limitações e as consequências de um[a] [...] separação". Isto vê-se precisamente no bloco de perguntas em aberto q está no final do post, que é o que faz todo o sentido dada a observação a partir de vizinha-que-ouviu e não de co-habitante-gritante.

    Pode ser fácil "escrever sobre a vida dos outros" (o q não acho q tenha acontecido aqui), mas também é fácil escondermo-nos atrás de desculpas só para continuarmos a viver com alguém que se odeia.

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  26. Bom texto... e boa questão...mas não penso que o ruído seja pior que o silencio e a indiferença....quando o outro já não existe já não vale a pena nem o grito nem a razão...

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  27. Teve, certamente, a sorte da vida a autora, estabilizou na sua relação com ela ou com alguém; mas quantos, quantos vivem vidas aparentemente opulentas vistas do exterior, mas lá dentro é um vespeiro, uma enxurrada de palavras proferidas contra um e outro, que parece uma metralhadora a disparar!
    Lembram-se deste poema do Álvaro Campos? Fiquem-se com ele e reflitam
    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,
    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?
    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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  28. Agradeço o poema, de tal modo que vou partilhá-lo num post. Adorei! Mas também ando a ler "O Livro do Desassossego" há anos...

    Quanto ao início do post, não entendi. Sugere que eu seja sortuda nas relações? Creio que as relações não são só questão de sorte, mas sobretudo de discernimento. De conhecermos o outro e a nós próprios... Ainda assim, é possível que chegamos apanhados em situações inesperadas.

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  29. Meus cumprimentos pelo texto escrito com equilíbrio, Sábia reflexão sobre a triste realidade de tantos casais...quando o amor e o respeito deixaram de ser as alianças do convívio saudável, ferindo a si próprios e aos seus entes queridos, filhos, familiares,amigos.
    Como Advogada reconheço que o remédio amargo é o que cura... o reconhecimento da falência da união , do casamento , é vital ! Recomeçar é sinete de respeito a si próprio. Curar-se das sequelas da devastação emocional das brigas, ofensas, dos silêncios e das indiferenças gélidas é um processo que exige força e fé . Há profissionais que auxiliam, Escritores como você Célia Correia Loureiro que iluminam o caminho da re-descoberta do ser ... Gratidão pela leveza de sua pena, sem julgar , e em minha vida profissional seu texto é um libelo à Esperança. a fruição do Direito à Felicidade. Bravo !

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