Separação
Hoje pus-me a pensar em separação. Ah, como deve doer uma separação. Como a verdade de um momento se transforma e se torna incompatível com o agora. Como o ontem foi aproveitado com uma vaga noção de finitude, e de repente o fim surge. Como deve doer conhecermos a fundo outra pessoa, nos momentos mais íntimos, mais privados, e como isso deve tornar insuportável a ideia de imaginar essa pessoa nas mesmas circunstâncias, mas com outro a seu lado. Saber que há pouco tempo os pés se entrelaçavam debaixo da colcha, e que a respiração adormecida do outro nos fazia cócegas no pescoço, e agora desapareceu. Que o beijo à chegada, o beijo de saída, o buscar o colo dessa pessoa, a curva do ombro dela onde a nossa cabeça encaixava com tanta naturalidade… Agora é outra cabeça lá, outra voz a fazê-lo rir. Pensar que a gentileza que nos foi dirigida agora abre portas e afasta cadeiras a outra pessoa. Aquela voz de madrugada, a rasgar a escuridão da noite, a dizer-nos o indizível, a abrir-nos a alma e nós a colhê-la com cuidado na palma das mãos. O riso até às lágrimas, o terminar-se um beijo com os lábios distendidos num sorriso, os lábios do outro no nosso joelho e os sítios onde sentia cócegas… Agora essas confissões pertencem a outros ouvidos. Pensar que um dia foram dois numa cozinha, de volta de um refogado, os pensamentos encadeados, concertados, e que agora há outra pessoa diante desse fogão, a provar a comida da mesma mão. Pensar na música, nas inúmeras horas de conversa, no amor que podia ter sido tão grande, e que acaba. Como deve doer uma separação…
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