He's just not that into you
Ontem, uma senhora que respeito imenso e com a qual tenho tido o prazer de conviver nos últimos tempos, perguntou-me se tenho namorado. Fiz a minha piada habitual: "ninguém me quer", e rimo-nos. Com gentileza, ela disse que com certeza não seria esse o motivo. Mas até acaba por ser - simplesmente deveria ter complementado com "ninguém que eu queira me quer".
Quando entrámos no elevador, e ainda sob o seu braço, resumi-lhe a génesis da minha última história amorosa. Tem graça porque conheço inúmeras histórias assim, não sei porque achei que estaria imune a esse enredo. Mesmo o 500 Days of Summer explora essa questão de não sermos a pessoa certa para o outro. Ela podia ter desfiado aqueles clichês: ele não te merecia; ou vais encontrar um melhor; ou o que é teu está guardado.
Ao invés, a honestidade dela ao responder-me a esta questão desarmou-me:
- Ele não gostava de ti.
Just like that. He's just not that into you.
E eu admiti-lhe que não é fácil admitirmos que a pessoa de quem gostámos não conseguiu sentir o mesmo por nós. Dá ideia de que há algo errado connosco. Mas o que há de errado em simplesmente não sermos a pessoa certa para o outro? Não há absolutamente nada que possamos fazer. O ideal é desistir - não acredito que sentimentos mudem assim. Isso acontece no Orgulho e Preconceito, naquele famoso discurso em que o Darcy pergunta à Elizabeth se ela ainda se sente como "em abril passado", quando o rejeitou, ou se os sentimentos dela entretanto mudaram.
Sou capaz de ter passado uma década da minha vida à espera que os sentimentos dos outros mudassem em relação a mim. Que a convivência, os eventuais pontos positivos que tenha, provocassem essa afeição. Que o estar por perto, ser leal, sincera, disponível (e às vezes apaixonada) acabasse por trazer esses sentimentos à tona do outro lado também. Em que se traduziu isso tudo?
Perdi tempo. Perdi tanto tempo... Se ao menos me tivesse permitido ouvir, assimilar, o que sempre soube:
- Ele não gostava de ti.
Aí está. Tão simples. Ter-me-ia poupado anos de amarguras e de lágrimas. Só isso. Se me tivesse permitido aceitar essa verdade, se tivesse eliminado os discursos dos romances eduardianos da cabeça, fora com o Orgulho e Preconceito, não tinha passado por metade dos aborrecimentos.
Os trinta trouxeram-me uma coisa: aceita-se. Não se luta por causas impossíveis. Faz-se o que se pode, nisto e em tudo.
Talvez o amor não seja para mim, e eu esteja apenas destinada a percorrer alguns quilómetros da minha estrada com pessoas específicas, que me ensinam muito, a quem gosto de pensar que também ensino bastante, e depois seguimos cada um para o seu lado, sem raiva nem zangas. Simplesmente... seguimos.
É tão simples... Ele não gostava de ti.
There, there, libertador. Nada de errado comigo por isso.
O amor é uma ciência indecifrável. Com os trinta veio ainda outra coisa nova: dói muito menos. Ultrapassa-se mais depressa. Valores mais altos se alevantam. A vida continua.
Por isso, quanto mais cedo interiorizarem esta verdade, mais cedo a vossa vida prossegue por colinas e vales esverdeados e soalheiros.
He's just not that into you.
Muitas vezes procuramos os porquês de forma irracional e isso leva-nos por um caminho auto-destrutivo. O amor é simples: ou se sente ou não se sente. E quando não se sente não se pode disfarçar. A senhora foi muito lúcida na sua resposta. É isso que se quer: não deu esperança nem a retirou; pode ser uma realidade crua, mas é a mão estendida de que muita gente precisaria. Gostei de ler, Célia. Gostei de ler. Ah, a Célia não é o problema! Nunca foi e nunca vai ser!
ResponderEliminarBom domingo
Bom dia! É isso, ou se sente ou nada feito. Vi que fez seguir no meu insta, mas preferia que seguisse a minha página pública celiacorreialoureiro, se não lhe causasse incómodo. Vou espreitar o seu blogue. Bom domingo!
ResponderEliminarClaro, Célia! Vou estar atento.. 👀😉😎
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