Quando eu era romântica
Acordei ao meio dia e meia, com aquela sensação de ter acabado de ser atropelada por uma carroça de bois. Comei a imprudência de aceitar uma videochamada ainda deitada e, pela primeira vez, olhei para o meu reflexo e vi sinais de velhice. Já tinha visto sinais de cansaço, de desleixo e por aí fora, mas nunca tinha visto traços do tempo no meu rosto. E hoje encarei-me deitada de lado, com duas bolsas acinzentadas e flácidas sob os olhos, pálida e com pés de galinha. Caramba, a idade estará a apanhar-me? Já tenho trinta anos, trinta anos. Depois lá consegui acalmar-me: as heroínas dos meus romances costumam ter mais de trinta anos, uff. Ainda vou a tempo de ser a heroína de um romance.
O Rodrigo Guedes de Carvalho é uma pessoa inspiradora, daquelas como há poucas. Hoje trouxe à superfície a minha veia romântica, enterrada há várias primaveras. Encerrou-se o jornal da noite da SIC com a cena final de Cinema Paraíso, um dos meus filmes favoritos de sempre. Mostrei-o há poucos meses às minhas irmãs e choramingámos todas no final. É lindo em todas as frentes. É lindo na banda sonora, na exploração do primeiro amor, da amizade entre um velho e um menino, no papel do cinema na dinâmica de uma aldeia italiana no pós II-Guerra Mundial. E Itália, a propósito, é o país mais lindo do mundo. Juntam tudo isso, embalado pelo violino de Ennio Morricone, e as vossas emoções aportam nessa cena final com que se encerrou o Jornal da Noite esta sexta-feira. Fui ver a cena e chorei. Voltei a vê-la e voltei a chorar. E pronto, de repente lembrei-me como era ser romântica. Como era imaginar que um dia teria o tal ao meu lado, no sofá, e que podia ser eu. Podia saltitar, podia dançar de excitação e guinchar que íamos ver o meu filme favorito. No fim ia apertar-lhe o braço e chorar, e ele havia de se rir por eu estar a chorar, embora ele próprio tivesse vontade de chorar. Pronto, e é isto o ser-se romântica aos 30. É como que ser-se romântico sem grande esperança de que essas quimeras de outrora venham a cumprir-se. Mas foi bom recordar que um dia o meu peito andou tão cheio de emoções boas, e que se eu não tivesse sido romântico e sonhado tanto com um amor bonito e para sempre, nunca teria vivido estas dezenas de filmes, de músicas e de livros tão a fundo, e seria menos completa a nível emocional. A vida seria mais monocromática, e assim é de uma beleza estonteante, que inebria e comove.
Para rematar, o Rodrigo Guedes de Carvalho despediu-se da semana, no instagram, com um quadro de René Magritte, Les Amants (1928). É só o meu quadro favorito de sempre. Até a minha irmã o reproduziu na escola, e devo dizer que com algum talento para alguém que diz que não sabe desenhar. E eu vi-o, estive diante dos amants no Museu de Arte Moderna, em Nova Iorque. É por esses momentos que vivo.
Quando isto acabar, espero regressar a todos os sítios que ainda amo. Ainda que sozinha, talvez esta quarentena sirva para reaprender a sonhar, a enamorar-me da arte e da música, ainda que de coração vazio. Há beleza e fascínio na natureza e nos feitos dos homens com os pincéis, as letras e os instrumentos musicais. E eu gosto de me embriagar nessa beleza excruciante, que me espreme até às lágrimas.
Caramba, viver é sublime.
Gosto tanto, tanto, tanto desse filme :)
ResponderEliminarMe toooo
ResponderEliminarÉ, de longe, o meu filme preferido. Por tudo o que me diz. Pela minha infância, pela minha juventude. Acho até que, inconscientemente, "paira" um pouco no que escrevo. Porque a memória é a minha matéria principal. Memória destas aldeias, destes campos e florestas, destes ribeiros quase secretos. Destas pequenas vilas, onde havia sempre um alfaiate, um carpinteiro, um moleiro, um senhor que vinha passar filmes na Casa do Povo. Daqueles tempos que passaram como vento breve, mas que, ainda assim, souberam ensinar-me qual é a minha natureza: um homem simples que se emociona com fotografias das maravilhas que viveu.
ResponderEliminarFelicidades para o novo livro, Célia. Tudo de bom!
obrigada, Rui! Sim, o ambiente é lindíssimo. gostava de ter tido esse género de infância :)
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