O riso dos clinicamente deprimidos
Há alguns anos que a depressão tem sido uma realidade na minha vida. Nem sempre está activa, mesmo porque, sempre que a sinto a chegar, procuro ajuda. Vou ao Psiquiatra, ao médico de família (não é o mais adequado, mas desta última vez foi a médica de família que me ajudou), faço psicoterapia (de vez em quando...) e tomo a medicação tal e qual me é prescrita. O meu principal demónio é a ansiedade, e os ansiolíticos são drogas altamente viciantes. Assim sendo, os anti-depressivos são a alternativa mais adequada, a médio e longo prazo, para vencer a ansiedade. Tenho lido imenso sobre ansiedade, depressão, e por aí fora. Ouvi inúmeras explicações científicas, outras metáforas interessantes (como a do cão negro que nos segue para toda a parte). Nenhuma explicação me é tão esclarecedora como a que Robert Sapolsky nos oferece neste video.
Como ajudar alguém que tem depressão? Como distinguir uma depressão clínica da tristeza, da pessoa deprimida, do luto? Como ajudar uma pessoa que suspeitamos que pode sofrer de depressão clínica?
1) Ouvir e não diminuir o sofrimento do outro
Chega de dizer "estás só deprimido". "Também, nunca sais de casa!". "Se te distraísses mais..." e, sobretudo, se a pessoa considera que preguiça de antidepressivos para conseguir manter-se funcional, para sobreviver, não se sair com o habitual "essas drogas só fazem pior".
"A depressão é uma desordem biológica tão real quanto a diabetes juvenil". Imaginam-se a dizer a um diabético que abandone as injeções de insulina?
2) Entender que, para uma pessoa clinicamente deprimida, há um sintoma chamado atraso psicomotor, que faz com que tudo exija um esforço sobrehumano. Vestir-se, tomar banho, sair, limpar a casa, etc. A pessoa não é preguiçosa, nem desleixada. Está doente.
3) Entender que a pessoa clinicamente deprimida não consegue dormir bem porque os seus ciclos de sono estão todos revirados, o cérebro mistura-os, e assim priva o indivíduo de descanso. Não adianta dizerem à pessoa que devia deitar-se mais cedo ou acordar mais tarde. Ela não manda nos ciclos de sono.
"O que pode ser pior do que uma doença em que a pessoa é incapaz de sentir prazer?"
4) Distinguir uma pessoa "triste", que se refugia em comportamentos erráticos como comer compulsivamente, ou gastar dinheiro de modo inconsequente, de alguém clinicamente deprimido, que não consegue tirar prazer de atividade alguma: nem sequer de comer, ou de gastar dinheiro, ou de executar as tarefas que habitualmente lhe traziam satisfação A pessoa clinicamente deprimida frequentemente não tem apetite ou energia/motivação/interesse em executar atividades. Isto também se prende com distúrbios de neurotransmissores como a dopamina (ligado à motivação), e a serotonina (ligada ao humor e frequentemente ao conceito de felicidade).

5) A depressão tem factores genéticos (por ex., pessoas com uma variação do gene 5HTT têm predisposição para a depressão - mas apenas se tiverem passado por traumas na infância);
6) A depressão pode ser "adquirida" através de episódios de stress ao longo da vida.
Não é novidade que imensa gente passa por um stress tão incomportável, ansiedade sufocante, um sentimento de despero constante, que acaba por se convencer de que está a prejudicar os outros ao seu redor. Que está a atrasá-los, a causar-lhes trabalho. Tantas vezes a pessoa parte sem chegar a incomodar ninguém, pelo mesmo receio de incomodar. E a pessoa acaba por desistir. Suicídio é desistência - não por cobardia, não porque é o caminho mais fácil - mas porque viver é insuportável para a pessoa que decide partir. Aos familiares de quem parte, devo dizer que não devem culpar-se. Não há garantias de que pudessem ter ajudado a pessoa doente. O que podem fazer é, sobretudo, ouvir, respeitar - aconselhar, sim, mas não julgar. Sobretudo, não devem pressionar ainda mais a pessoa que já se encontra sob um horror inimaginável. Pesadelos, falta de energia, falta de apetite, um fingimento constante. Conseguem imaginar o que é representar a todos os instantes? Comer para evitar questionamentos, deitar-nos mas não dormirmos, rir porque é o esperado de nós em reação à piada que ecoa pela sala, fazer actividades porque hoje em dia é crime ficar-se parado, ir trabalhar senão somos preguiçosos, dar, dar, dar, quando a pessoa está num estado em que sente que está a chegar ao fundo do poço, que não consegue dar mais um sorriso, mais um conselho, mais uma hora da sua presença de fingido bem-estar?
Por favor, nunca considerem um suicida um cobarde. O depressivo não deixou de amar ninguém, simplesmente ama demais. Ama tanto que o mundo, cruel como é, se transforma numa ferida aberta. Num mundo em que tanta coisa causa dor aos que amamos, o depressivo não quer ser mais um fardo no progresso das pessoas felizes, saudáveis.
E é isto. Compreensão, por muito difícil que seja entender que um pai deixa os filhos para mergulhar no mar.
Depressão é tudo isso que escreveste e tudo aquilo que vai além das palavras e da biologia.
ResponderEliminarA falta de empatia para com o sofrimento do outro é enorme e isso leva a comentários infelizes e à desvalorização dos sentimentos. Então, para não se chatearem ou porque se sentem demasiado cansados e esgotados para ir contra aqueles que não os compreendem; as pessoas vão acumulando o stress, a ansiedade, a falta de esperança dentro de si até ao momento em que isto se torna insuportável.
Há pessoas que conseguem pedir ajuda. Há também pessoas que têm a sorte de se cruzarem com alguém que tem a lucidez de ver mais além e, assim, providenciar a ajuda necessária. Por outro lado há pessoas que internalizam demasiado os sentimentos, que se tornam mestres a escondê-los, assim, aos olhos dos outros está tudo bem.
É urgente que as pessoas sejam sensíveis ao sentimentos dos outros.
(Assim que tiver um tempinho, vou tentar ver esse vídeo).
Obrigada pelo pensamento. É um assunto e facto delicado, mas sinto sempre que depressão deve ser vencida pelo doente, não é uma batalha que os outros possam travar por ele. Mas podem estar presentes, ou dar espaço quando solicitado, ouvir, levar chocolates, dizer umas piadas, acreditar por ele.
ResponderEliminarPartilho do mesmo. O processo de cura/superação tem que partir do doente. Os outros podem é ser mais empáticos e sensíveis para com as fragilidades dos outros. E, claro, podem e devem fazer o que escreveste: abraçar, partilhar silêncio, mandar uma mensagem divertida e acreditar. Porém, qualquer que seja o processo de mudança, este começa e termina na pessoa. Esta é a minha forma de trabalho em intervenção psicológica: capacitar a pessoa com base numa visão muito humanista.
ResponderEliminarHá uns tempos comentava com uma amiga e colega de profissão que o nosso trabalho é, por vezes complicado. Se a pessoa que nos procura não quiser fazer diferente, há pouca coisa que possamos fazer.
A pessoa mais jovem que vi com depressão foi um bebé de dois anos. Esta depressão era resultada da depressão materna. Só te digo, partiram-me o coração. Foi algo marcante.
ResponderEliminarolá
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