#255 TOLSTÓI, Lev, Guerra e Paz (Vol. IV)


“(…) Existe nesta conclusão algo de contraditório, uma vez que a série de vitórias dos franceses os levou ao aniquilamento completo e que a série de derrotas dos russos os levou à plena eliminação do inimigo e à libertação da pátria.”



WhatsApp Image 2020-07-19 at 12.08.39.jpeg


Apesar de classificar este quarto volume com 4 estrelas, o conjunto de “Guerra e Paz” é um inequívoco 5. Não quis fazer a review a quente, porque sabia que precisava de deixar que o significado maior desta obra me penetrasse nos ossos. É-me hoje claro que é daqueles livros que ficarão comigo para sempre, que me apresentou a algumas das personagens mais queridas que jamais encontrei em literatura. Atrevo-me até a dizer que voltarei a lê-lo um dia, apenas para voltar a experimentar as vivências dos russos do início do século XIX, perante a ameaça que constituía “o anticristo”, e para procurar significados que negligenciei nesta primeira leitura.



Tolstoi, numa tentativa de explicar a natureza de Guerra e Paz, dizia não se tratar o livro de um romance, nem de uma crónica histórica, e nem de um poema épico. A mim parece-me um ensaio histórico que, por vezes, toma a forma de romance convencional, outras toma a forma de crónica, e ainda outras soa a poema épico. Diria que a essência do livro – como a concebi – é o despertar da Rússia para as suas especificidades, para o que lhe é genuíno, e a compreensão de que devem desligar-se dos modos europeus e focar-se no seu progresso a nível interno o que, algumas décadas depois, levará à revolução. É também uma tentativa de demonstrar que a Rússia estava fadada a tornar-se na força que viria a deter outra força até aí invencível: o exército de Napoleão; ao tornar-se no único inimigo à altura do imperador dos franceses, a Rússia assume o papel de salvadora da Europa. Segundo o epílogo do autor, o objetivo desta narrativa de quase 1700 páginas (na edição da Editorial Presença) é refletir sobre questões que o intrigavam: o movimento dos povos (como evoluem os povos e a humanidade), como se concentra o poder nuns poucos, e como é que o povo entrega o poder a esses poucos e segue o seu direcionamento. Isto resumido a: como é que Napoleão, um homem só e controverso, conseguiu convencer 600 mil homens a marchar Rússia adentro? Que génio o assistia? Existe livre-arbítrio desses grandes homens, e dos povos? Existe realmente liberdade, ou tudo se desenrola baseado na necessidade?

A história é complexa em todos os seus momentos, mas Guerra e Paz disserta sobre um dos mais difíceis de compreender. A citação acima exposta demonstra esta dualidade de circunstâncias: ora por um lado Napoleão nunca perdeu uma batalha contra os russos, por outro, acabou vencido pelo inverno, pela falta de provisões e por uma ou outra decisão menos acertada (como a de não se acautelar para o inverno quando tinha as provisões ao dispor do seu exército durante a tomada de Moscovo). Por outro, a Rússia foi sempre vencida em combate - além da inferioridade numérica, Napoleão era-lhes superior em estratégia e ferocidade. Mesmo inflamados pela necessidade de defender a mãe Rússia, os russos estavam limitados pela inaptidão militar do seu imperador, pela prudência a tempos exagerada dos seus generais, bem como pela impetuosidade inconveniente de outros. Mas a Rússia triunfou, o invasor desertou após derrotá-la. Como é isto possível? Como é possível que o vencedor da guerra pereça e seja aniquilado por circunstâncias exteriores à guerra que travou? Estava determinado, diz-nos Tolstoi, que a Rússia tinha de ser invadida, tinha de perder em campo e tinha de vencer por vias imprevistas.

Neste último volume encerra-se a viagem de 15 anos das personagens a que nos afeiçoámos, e que agora conhecemos até nas camadas mais obscuras da sua alma: Pierre, Andrei, Nikolai, Natacha e Mária destacam-se como os protagonistas desta odisseia. Vemo-los crescer, sofrer, ultrapassar obstáculos e conhecer o seu destino. Um fatum que o autor insinua que sempre lhes esteve reservado, porque o livre-arbítrio é questionável.

Cada vez estou mais enamorada da Rússia, da história e da cultura da Rússia, com os seus excessos, excentricidades e a humildade digníssima do seu povo. Despeço-me de Guerra e Paz com o sentimento de ter estado sempre a contemplar algo de um esforço tremendo, de uma beleza inegável, em grande medida para além das minhas capacidades. Remexer na história com esta precisão, dissecá-la em todas as suas particularidades… Tolstoi era, sem dúvida, um ótimo analista. E, creio, um ótimo historiador e filósofo. Vale a pena enfrentar esta viagem para nos sentirmos um pouco mais próximos do seu espírito.

Coragem!
--------------------------------
Nota sobre a revisão: apesar de ter lido a 3ª edição deste quarto volume, o mesmo estava pejado de gralhas... Espero que, entretanto, tenham sido corrigidas.

Comentários

  1. Uma obra que está na minha lista há já muito tempo. Obrigado pelo teu feedback! Beijinhos

    ResponderEliminar
  2. Se eu, que sou uma preguiçosa para ler livros grandes, o devorei em pouco mais de um mês, consegues com certeza!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Escritores: revoltai-vos

A Paisagem

#312 SILVA, Filipa Fonseca, Admirável Mundo Verde