What is a woman?

Vivemos num tempo em que se celebra o dia da mulher mas se receia definir o que é uma mulher. Escolho este dia para deixar a definição de mulher.


A mulher é o ser do sexo feminino da espécie Homo Sapiens Sapiens, o que sangra todos os meses e que continua a trazer ao mundo a continuação da espécie por via de suor, dor e lágrimas, porque “a natureza não se interessa pela dor, interessa-se pela reprodução, e continuamos a reproduzir-nos.” A nível sociológico, a mulher é uma coisa diferente em locais diferentes do globo. Foco-me em ser mulher aqui.


Nascer mulher aqui é descender de uma longa linhagem de desconsideração e por vezes até abusos. É nascer-se o sexo mais fraco num mundo pensado para os homens mas que temos vindo a conquistar aos poucos. É crescer com os pais e a família a imputar-nos responsabilidade, arrumação, asseio, a oferecerem-nos bonecas, nenucos, cozinhas e panelas. Enquanto isso, os nossos irmãos são crianças em paz. Sujam-se e brincam, e nada lhes fica “mal”. Por volta dos 12 anos (cada vez mais cedo agora) surge o período, e as regras voltam a apertar-se. “Agora és uma mulherzinha, tens de te comportar, não podes andar por aí feita maria-rapaz”. Em cima disso, há as dores menstruais, a endometriose tardiamente diagnosticada, o coro de vozes “passamos todas pelo mesmo, é normal”, e a compreensão relativamente recente de que não é. É passar a adolescência a ouvir “vê lá, não engravides”, porque a responsabilidade, aqui palavra de ordem, é dessa menina e não do rapaz, pois a sociedade já assume que esse deve é divertir-se, curtir a vida e atentar no futuro, sem obstáculos. É ser adolescente e ouvir constantemente comentários sobre o nosso corpo. Eu cresci com “é baixinha” e “é só pele e ossos, ela come?”. E ainda “não tem quase maminhas”, o que é imperdoável segundo a estética da imprensa. O meu irmão, a meu lado, “era alto e tinha olhos lindos.”


Ser mulher foi especialmente difícil na adolescência, e sobretudo quando se é pobre e não havia dinheiro para depilações a cera em salões, e as atividades da escola incluíam idas à praia e passeios de barco no Zêzere. Lembro-me especialmente desse passeio porque usei uma lâmina nas pernas e deixei-as como um cenário de massacre. Passei o dia quente de calções mais atenta às feridas nas pernas do que aos remos. Profundamente embaraçada. Imagino que os rapazes não passem por isso, se o fizerem é sem pressão social e por isso, mesmo que desgracem as pernas, o dia segue com naturalidade. Ou ir de férias e não aproveitar a piscina porque, apesar de toda a gente dizer que o tampão é seguro e higiénico e fácil de colocar, não é assim para todas. Ser mulher é ter uma despesa extra mensal com analgésicos e parafernália higiénica.


É engravidar sem o desejar e ter a opção de assumir uma criança que não se quis - eventualmente amá-la - ou ser mutilada para a remover, e possivelmente ter de viver com isso na consciência para sempre.


Ou não poder engravidar, e submeter-se a tratamentos e exames de diagnóstico, muitos deles dolorosos, enquanto o escrutínio ao parceiro é deixado para último recurso.


Tendo crianças, é esperado que seja a sua cuidadora máxima. E isso de ser o esperado já tem um grande peso. Não tendo crianças, por vezes é olhada como se houvesse algo de errado consigo por simplesmente não acalentar o desejo de ser mãe.


É ir a consultas de rotina e perguntarem-nos "alguma vez engravidou?", e ter de lidar com o painel emocional que se acende perante essa questão. Posso? Não posso? Quis? Não quis? Não, e tirei. Sim, e perdi-o. 


Ser mulher é ganhar peso mais tarde e ninguém se coibir de o mencionar. Ou as rugas que vão surgindo. Ou os cabelos brancos. Vão sugerir-nos cremes e cabeleireiros e tintas e soluções para “esconder” a fealdade que vai engolindo a mulher que envelhece naturalmente. No meu caso, é perguntarem-me várias vezes se estou grávida, quando estou apenas mais gorda, ou inchada.


É ter 33 anos e por isso estar numa sala de espera a aguardar uma ecografia mamária, porque além do patriarcado o cancro da mama é um grande inimigo do sexo feminino.


Por volta dos cinquenta, ser mulher é enfrentar as provações da menopausa, de sentir que somos uma flor que murcha, lá se vai a frescura, o sangue, os atrativos. Chegam os afrontamentos, as indisposições. O homem? O homem envelhece como o vinho, fica mais atraente com a idade (ou melhor, quando alguém se manifesta, é para este tipo de reparo, não para “estás a relaxar-te. Queres o contacto de uma clínica de implantes capilares? Já experimentaste aquele creme y? A barba branca fica-te mal, não dá para pintar?”


E fiquemo-nos por aqui. Não posso considerar isto tudo e recusar-me a responder à pergunta “What is a woman?”


Para mim, ser mulher é isto tudo. E isto merece ser dito. Não pode ser varrido para baixo de nenhum tapete. Não pode ser silenciado por receio de ofender. Isto é uma mulher.

Comentários

  1. Belo texto!
    Ser mulher é viver numa montanha russa de emoções vitalícia!

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