Alentejo, here we go
Há demasiado tempo que dizia que o meu «sonho» era mudar-me para o campo. Com campo, não me referia a uma casa isolada numa estrada por alcatroar a 3 horas de Almada. O que imaginava era uma vida enquadrada numa pequena comunidade, mas com vizinhos (não necessariamente encostados a mim, mas é assim que será), uma moradia onde me livrasse por fim dos problemas do condomínio, do telhado, da limpeza das escadas e a coluna de água, com um espaço verde para os animais e para, um dia, aprender a jardinar.
Durante meses - se não anos - pesquisei continuamente essa possibilidade, mas sem coragem de dar o passo. A minha irmã era menor e a questão da escola era um dos pontos que me ia fazendo hesitar. O meu emprego era outro. De repente, a miúda estava prestes a concluir o secundário e eu trabalhava em casa. Valia realmente a pena continuar a acordar a meio da noite com o barulho dos convivas que saem do bar que há na minha rua? Valia a pena ser multada a cada três meses por não ter onde estacionar na minha zona, as filas intermináveis para a praia, o calor na selva urbana, o terceiro andar sem elevador, o chiado do metro de superfície aqui à porta, as escaramuças no café no piso térreo do meu prédio?
Decidimos que, surgindo a casa certa - a localidade certa, íamos embora daqui.
Ponderei muitas vezes adquirir uma casinha na aldeia da minha falecida avó - onde fui feliz muitas vezes, mas fica ao fundo da IP3, a 3 horas de Almada, para norte (e preferia ficar a sul do Tejo), não encontrei uma casa com um quintal adequado e conheço as fragilidades da aldeia, as discussões no café, os copos a mais, a enxurrada de visitantes de dentro e fora da aldeia em Agosto, todos estendidos à beira rio com o seu exército de Pinschers. Não havia qualquer incentivo para uma jovem de 18 anos ali.
Comecei a vir para sul, e acabei por aportar em Évora. Depois de meses à procura de casas, de repente uma por um preço decente, a precisar de reparações, como tantas outras. Posso manter a casa em Almada, adquirir a outra, remodelá-la e ficar com um plano B se o «campo» se revelar menos ideal do que imagino.
E é isso. Vou-me embora. Vou escolher os livros que vão e os que ficam. Vou (espero eu) viver no silêncio de uma pequena comunidade, com um nº de habitantes que está muito longe dos 1000. A 20 minutos de um Mercadona, de um centro comercial, de um cinema, de uma capital com ofertas culturais. No meio do calor - Jesus, é o calor que mais receio. Estarei a pouco mais de uma hora de comboio de Almada que, com os tempos, espero deixar de considerar «casa».
Espero poder organizar a minha cabeça, as minhas rotinas - com a ajuda preciosa da medicação para PHDA também -, ser mais produtiva, mais realizada, e andar por aí menos cansada.
Na véspera de assinar a escritura, de partir para essa casinha e de a ver com olhos de minha - com tudo o que a remodelação vai implicar em termos de tempo, stress, dinheiro, tenho medo. Sinto-me a sofrer sucessivos picos de ansiedade nos últimos dias. Estou assoberbada de problemas, de receios, de incertezas. Tenho ficheiros do excel com planeamento, folhas e folhas de cálculos e de calendarização. Há demasiada coisa que não depende de mim neste processo, e prevejo que terei de bater a muitas portas para pôr tudo a funcionar. Sinto-me um pouco agoniada, com vertigens, uma fome constante e um cansaço do tamanho do mundo. Vou ter de me mentalizar que será uma última corrida antes de, por fim, poder descansar à sombra da bananeira. Quero pensar assim. Não quero pensar que este passo que mais uma vez dei à revelia dos conselhos dos mais cautelosos me vai desfazer física e financeiramente. Não sinto que tenha muita margem para me desdobrar mais. Estou naquela fase em que entro no supermercado e vagueio, com um zumbido na cabeça, sem focar o olhar em nada. A medicação para PHDA não está a funcionar, estou completamente enterrada em tarefas. E o antidepressivo não tem dado conta da ansiedade. Dou por mim de dedos a tremer e cabeça a latejar demasiadas vezes.
Estou cansada. Exausta. Mas isto era necessário, e por isso vou lutar com todas as minhas forças e recursos para que se transforme na salvação pela qual eu tanto ansiava.
Respirar fundo. A meta já não está longe.
Só mais um bocadinho.
Felicidades!
ResponderEliminarVai correr tudo bem!
Só para não ter que aturar as reuniões de condomínimo vale a pena viver no campo. Felizmente sempre vivi no campo, quando era adolescente os meus amigos diziam que eu vivia no mato (estava a pouco mais de 20 minutos a pé das casas deles na civilização). Felizmente nos últimos 40 anos não deixaram que o mato fosse invadido por casas ou andares e cá continuo a viver no campo ( que é o upgrade de viver no mato) e eles a queixarem-se, justamente, da seca que é as reuniões de condomínio e todos os problemas complementares, com inveja do meu mato.
ResponderEliminarE ao lado de Montemor-o-Novo que respira CULTURA como fazemos ideia quando estamos em Lx.
ResponderEliminarÉ algo que também considero, a paz do campo, o ar limpo, não ter obras e o seu barulho a toda a hora
ResponderEliminarMuitas felicidades!
Apesar de já morar no campo, mas relativamente perto de Lisboa ir morar para um monte no Alentejo e continuar a ter os meus animais e a minha horta e viver exclusivamente disso é um dos meus sonhos sem duvida, por isso percebo o que dizes.
ResponderEliminarDa minha parte se precisares de ajuda nesta parte das agriculturas e animais do que souber é só dizeres.
z
ResponderEliminarDificilmente alguém faz algo para o nosso bem. Porque raio temos de saber o que alguns fazem na sua vida privada?
ResponderEliminarPenso que um dos objetivos é criar diversões para não se falar no que é importante.
E qual o interesse disto para os outros? Quem não tem que fazer, podia fazer algo de útil e ir ajudar quem precisa.
ResponderEliminarEstou a torcer muito para que corra tudo bem!!
ResponderEliminarEspero que corra tudo bem! ☺️
ResponderEliminarSe não quiser ler, não leia, ninguém o obriga a isso.
ResponderEliminarQual o interesse do seu comentário para os outros?
ResponderEliminarDepois, Sr Anónimo que passa a vida a fazer este comentário (independentemente do tema tratado) em vários blogs, muitos deles nem são publicados porque o bloqueiam, quanto tempo perde por dia para os fazer se, como muito bem diz, podia fazer algo de útil e ajudar quem precisa?
É uma patologia, tal como os que ficam na beira da estrada a acenar aos carros que passam, mesmo sem conhecer ninguém
ResponderEliminarTudo dito 😂
ResponderEliminarDesejo a maior das sortes nos seus sonhos.
ResponderEliminargostei.
ResponderEliminarPara dizer o que mais gostei, apreciei, teria de reler e anotar.
Até á parte das incertezas, até aí estava linda, determinada, lucida e a fazer pela vida, sortuda por poder ter um pé cá e outro lá.
È provavel que em evora a saude melhore. Está a tentar e é isso o que se espera.
e agora que ja assinou, resolveu, nada adianta o que vou dizer, eu fascinado pela arquitetura que enche a visao.
ResponderEliminarPara lhe dizer que podia comprar uma casa sem jardim, e construir um jardim por cima da casa.
ResponderEliminar
ResponderEliminarolá
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