Encruzilhadas
Ainda na senda de me compreender - labor que levarei comigo até ao último dia - continuo a deslindar o papel da PHDA naquilo que sou. Ontem fui levantar uma encomenda à Praça da Liberdade, em Almada. Um sítio a partir do qual podia ir a qualquer lugar. Podia descer para a Bertrand e ver livros (proibida de os comprar, porque estou prestes a mudar-me e não vale a pena acumular mais tralha para levar), podia ir à sapataria procurar umas botas adequadas ao meu favoritismo por conforto, podia ir inspirar o cheirinho típico do Ponto das Artes, escolher mais alguns pastéis de óleo. Perante tanta opção, congelei. Fiquei de pé no cruzamento entre a praça e a avenida, debaixo de uma luz onírica, ciente de estar a alguns prédios da casa onde nasci, do rés-do-chão para onde a minha mãe me levou e no qual vivi até aos cinco anos. Uma vez, sentada na cadeira de dentista nesse mesmo lugar, senti uma picada familiar. Embora me parecesse tudo tão pequeno, reconheci a configuração do espaço. Estava a fazer uma limpeza dentária naquilo que foi, em tempos, o quarto onde dormia com a minha mãe. O quarto onde vomitei os lençóis durante a noite depois de ficar a comer caracóis até às tantas. Para a esquerda, os contornos da cozinha onde costumava esconder-me debaixo de uma mesa de pedra (mármore?) enquanto a minha mãe andava de roda das panelas. Pedi permissão para ir até lá, atravessei a cozinha (entretanto copa) e alcancei a varanda, agora marquise fechada. Olhei lá para baixo. Eis a cave do vizinho, para onde cuspi a minha última chucha. Era capaz de jurar que aquele molho de urtigas é o mesmo em que a vi desaparecer.
Na encruzilhada, cruzamento, como preferirem, de cara franzida por causa do banho dourado da luz solar, pensei nisso tudo. Meti as mãos nos bolsos e subi a avenida, optando por voltar para casa. Dei-me conta de que não tinha tomado o Elvanse, a pessoa que se detém em encruzilhadas sou eu, eu e a minha condição. A minha distração. O meu atordoamento perante decisões simples do dia-a-dia, a minha certeza inabalável perante decisões maiores. Percorri a calçada da rua para onde fui viver quando nasci. A pastelaria em frente é a mesma. Estou a deixar Almada. Estou a deixar muito de mim para trás. Quem sabe se para nunca mais voltar.
Esse cruzamento já atravessei: vou partir.
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