O Murmúrio dos Estorninhos

Quando tive de escolher o tema para o trabalho de Literatura e Artes, escolhi O Orientalismo em Madame Butterfly, de olho na versão de Giacomo Puccini. Sempre senti um fascínio inexplicável pelo compositor lucchese, mas, e apesar de ter visitado por quatro vezes a Toscana, nunca tinha visitado Lucca.
Assim, decidi que era chegada a hora e marquei uma viagem sozinha a Lucca, com o objetivo principal de me deixar inspirar. A última vez que estive sozinha em Itália foi em dezembro de 2016, por duas semanas. Corri Itália de norte a sul. Em Siena, fiquei num velho palazzo com vista sobre os telhados terracota. Falei com a minha avó por Facetime, e já sabia que ela estava em estado terminal. Abri a janela e mostrei-lhe as cores da minha cidade favorita italiana. Lembro-me dessa chamada porque comportou tanto beleza quanto angústia. Lamentei que ela não tivesse tempo para conhecer um bocadinho do mundo comigo.
Nas últimas semanas, senti-me tantas vezes cansada, exausta, esgotada, que ponderei cancelar, adiar ou mesmo simplesmente faltar à viagem. Contudo, houve um fecho de telejornal que pesou muito na minha decisão. Correu o mundo um vídeo de um bailado coreografado de estorninhos, sobre uma piazza na Sardenha. A música de fundo era Nessun Dorma, do meu adorado Puccini. Lembrei-me de como Itália é um país rico em bênçãos, em beleza e cores, e como a beleza faz bem à alma. Sempre disse que Itália é terapia para a alma, porque já ma amaciou vezes e vezes sem conta, no passado.
Então, às 5h30 da manhã de hoje, levantei-me da cama, tomei um duche, vesti-me com as roupas novas que comprei ontem à pressa no Almada Fórum (ainda não sei onde tenho a roupa de inverno, provavelmente no cimo da despensa), e entrei no Uber do Flávio, do Rio de Janeiro, em direção ao aeroporto. Pelo caminho, claro, falámos de trânsito e de beleza.
O voo para Bolonha correu bem, fui sentada ao lado de um casal super simpático (e charmoso) de italianos. Os homens italianos têm isto, sobretudo a partir da meia-idade. A voz suave, o italiano por si só, os óculos de inteletual e a graciosidade de todos os movimentos. Elegância nata. Os mais novos, que me perdoem, são todos meio chunguitas (neste momento, andam de quispos e calças justas a jogar à bola com latas na rua, são 23:30 em Itália). O senhor, de talvez 60, 65 anos, viajava de fato azul-marinho, com sobretudo por cima. Ia a ler, a mulher também. Também abriu um caderno durante o voo e escreveu. Expliquei-lhes que voava para Bolonha, mas que o meu destino era Lucca. Disseram-me que regressavam a casa, em Ancona, depois de uma quarta visita a Lisboa, que adoram. Sobre Lucca, mencionei Puccini e o senhor explicou-me que a mulher era uma expert em ópera, porque trabalhou na organização desse tipo de eventos. Senti que os sinais estavam todos a meu favor.

Uma vez em Bolonha, demorei 20 minutos a percorrer o trajeto entre o terminal onde desci do avião e a sala de espera do Marconi Express, o comboio cujo bilhete eletrónico tinha comprado antecipadamente. A bella Itália não tardou a lembrar-me do seu pendor para a imprevisibilidade (para mim, que não estava a par do assunto, foi inesperado), e por toda a parte, em Bologna Centrale, havia avisos sobre a greve nacional dos maquinistas. Resumindo: corria o risco de, domingo, não ter comboio de regresso a Bolonha. Em breve, andava a correr de um lado para o outro dos percursos subterrâneos atrás do binario do meu comboio, para depois chegar lá e a funcionária me dizer, com uma expressão impávida e serena, que era 1 Est, e que eu estava no 1 Ovest. Lá voltei a rir e a descer as escadas com o trolley a reboque, a recordar-me dessa mesma recordação de dezembro de 2016, em que era quase tudo impossível de encontrar à primeira.
Sentei-me numa esplanada na estração, rodeada de colunas em ferro fundido, a comer uma pizza de mozzarella, tomate seco, manjericão e, para meu azar, anchovas. A luz de outono era tão perfeita que bastou-me estar ali, a comer e a pestanejar por um quarto de hora, para me sentir renovada.
A chegada a Lucca foi igualmente tranquila, atravessámos os campos da Toscana num regional, com muita luz dourada a inundar as janelas, e, quando dei por mim, tinha lido um terço do Inquieta, da Susana Amaro Velho, desde que saí de casa esta manhã. Uma vez na estação, sintonizei o spotify para as minhas árias favoritas de Puccini e, assim que comecei a subir a rampa para a rua, começo a ver estorninhos a bailar no céu límpido do fim de tarde. De vez em quando, a vida grita-me: é aqui, é mesmo aqui que tinhas de estar.

Percorri os poucos metros da estação de comboio até ao meu B&B e não resisti a tirar algumas fotografias pelo caminho. Há jardins com roseiras, portas naquele tom terracota da Toscana, o centro histórico é muralhado, estão a preparar uma feira de Natal, há um presépio já montado, embora por iluminar, e as lojas têm um ar vintage, com as fachadas em madeira e vitrines tipo art nouveau que a mantém ao abrigo do capitalismo desenfreado das cidades muito turísticas. A partir de amanhã estará tudo iluminado e a feira estará em pleno funcionamento. Nem uma vaca Ale-Hop à vista, nem uma Zara. Bicicletas, esplanadas, italianos a passearem os cães fashionistas, é tudo. O B&B é no topo de um antigo palazzo, com uma cama antiga, paredes antigas e uma escrivaninha que podia ser, precisamente, do tempo de Puccini. Para subir ao segundo andar há um elevador exterior, como em Siena. É para isso que servem os pátios originais destes edifícios. O prioprietário foi muito simpático e o tecto da sala onde serve os pequenos-almoços e onde está sentado ao computador, rodeado do globo terrestre e de livros, está cheio de rachaduras e de frescos. É tão bonito ver que não cedeu ao branco estéril da atualidade e que deixe que a beleza permaneça por entre as marcas do tempo... Convidou-me para tomar o pequeno-almoço amanhã (ainda não verifiquei se está incluído, ele disse que era irrelevante), falou-me do seu divórcio e de como veio de Roma viver para Lucca há vinte anos, de que tem uma filha de 17 anos e que a avó costumava lavar roupa no Tibre, em Roma. Teria ficado ali mais umas quantas horas a conversar, e falar italiano é um prazer a que nem sempre posso entregar-me.

Antes de jantar (bruschetta di pomodoro e tordelli, a massa tradicional de Lucca) meti os auriculares e fui ate à Casa-Museu Giacomo Puccini. De salientar que estou neste momento deitada a 200 metros da casa onde nasceu aquele que é, para mim, o melhor compositor de todos os tempos. Senti arrepios quando cheguei à piazza onde está a estátua de bronze do Maestro. inaugurada em 1994 e da autoria de Vito Tongiani, para celebrar o 70.º aniversário da morte do compositor. A luz da praça incidia sobre a figura de bronze de uma forma meio fantasmagórica. Ouvia o lado trágico - emotivo, transcendente - da sua "Vieni la Sera", e senti que estava numa vida antiga, perante um homem que amava e admirava, apesar dos seus inúmeros defeitos. Compreendi o desespero de todas as mulheres que devem tê-lo amado e chorado por ele. A Piazza della Cittadela estava semiobscura, à exceção das vitrines dos cafés e restaurantes com nomes de óperas de Puccini. Vi La Bohème, Tosca, Turandot e Madame Butterfly. Senti-me profundamente emocionada e, logo atrás da estátua, a fachada da casa-museu com o aviso de que estaria encerrada até amanhã. Por sorte, graças à greve dos maquinistas, mudei a minha partida de Lucca para segunda-feira, de modo que ainda poderei visitá-la (e com direito a visita guiada especial!) no domingo, dia 24.
No regresso ao B&B, sempre a sentir que flutuava, passei por uma pintura lindíssima de Madame Butterfly na grade de uma loja fechada. Madame Butterfly a flutuar, deixando cair o punhal e elevando-se, envolta em borboletas.
Ideias para romances: 1
Aguarelas de jeito: 1, do Maestro, com água mineral porque não tinha outro recipiente que não a garrafa de água Luso lisboeta e inflacionada do aeroporto para molhar o pincel.
Árias ouvidas: Infinitas.
"Chunga" me tocou demais. É bastante parecido ao grunhido abafado que as mulheres fazem quando me aproximo. Agora está explicado!
ResponderEliminarCélia,
ResponderEliminarSe ainda for a tempo, tente espreitar a Libreria Sopra la Penna. Tenho ideia que, não estando situada em Lucca, pode ficar perto. É a livraria que inspirou o livro "A livraria na colina", um dos que mais gostei de ler este ano. Recomendo vivamente (o livro e, quem sabe, a livraria). Boa viagem!
The writer's deep connection to Italy and Puccini's music reveals how art and beauty can provide solace during difficult times. Despite exhaustion, the allure of Italy and its therapeutic qualities inspired the decision to embark on a meaningful journey.
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siena será aquela praça fechada pelos predios, se for já lá estive, se nao for tambem nao interessa.
ResponderEliminarInteressa que os mais amantes do puccini com o post enriquecem a relaçao e talvez partam, nao sem antes se prevenirem quanto á greve ferroviaria.
Acho que vi em video recente essa cena dos estorninhos, sempre impressionante, e neste caso que vi eram mesmo muiitoos.
Um dia destes vou ver lucca no mapa .
Muito interessante… coitadinha da avó.
ResponderEliminarISO 21001 Certification in Hyderabad (https://www.b2bcert.com/iso-21001-certification-in-hyderabad/) is designed for educational organizations to enhance the quality of learning services and meet stakeholder needs. It ensures a systematic framework for improving educational processes and outcomes. The certification promotes inclusivity, accessibility, and continual improvement. Organizations can demonstrate their commitment to excellence in education by achieving ISO 21001.
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ResponderEliminarolá
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